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Religião
e alienação
–
com Marx contra Marx
Osvaldo
Luiz Ribeiro
03/08/2007
| "La
religion est le soupir de la créature opprimée, l'âme d'un
monde sans coeur, comme elle est l'esprit de conditions
sociales d'où l'esprit est exclu. Elle est l'opium du
peuple" (p. 42, grifo meu, exceto o de opium,
de Marx) |
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Marl
MARX, Critique de la philosophie du droit de Hegel - Introduction,
em Karl MARX e Friedrich ENGELS, Sur la Religion. Textes
choisis. Traduits et annotés por G. Badia, P. Bange et E.
Bottigelli. Paris: Éditions Sociales, 1960. p. 41-58.
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É
lugar comum a citação retórica de que Marx tenha diagnosticado a religião
como “ópio do povo”. A religião seria, destarte, fruto da
alienação humana.
Não seria um mal em si, mas um sintoma. É deixar o doente de repouso,
medicá-lo com um ou dois comprimidos anti-gripais, dar tempo ao tempo,
ministrar umas boas canjas bem quentes, umas compressas de igual calor,
permitir-lhe umas boas noites bem dormidas, e eis novinho um homem
desalienado, e, conseqüentemente, e, ainda mais, sem que nenhum esforço
contra-religioso tenha sido empregado, desreligioso. Porque o mal
religioso é um sintoma menor de condições graves nas condições reais
- materiais - da vida humana.
Ao
som de Marx, lá se dividem as multidões. Há aqueles que lhe repetem o
diagnóstico, para os quais a religião não tem existência ontológica.
A religião é um não-ser, cujo ser social se desconsidera, finge que não
se vê, despreza-se. Cem anos depois de Marx, ainda há quem apenas repita
a proposição inicial, sem desenvolvê-la criticamente. Deixam-se-lhes de
lado, aqui.
Outros,
por sua vez, tentaram outras hipóteses, a um tempo diferentes e iguais a
de Marx. Freud, por exemplo, considerou a religião uma patologia da mente:
"a religião é comparável a uma neurose da infância" (O
Futuro de uma Ilusão). Novamente, um sintoma, mas um sintoma, agora, de enfraquecimento
biopsicológico. Talvez, um dia, a "humanidade" lograsse êxito
em libertar-se dela. Ou, talvez, Freud reconhece, a transferência direta
de distúrbios psicológicos de indivíduos singulares para a raça
mostre-se metodologicamente equivocada. Seja como for, para Freud,
"religião" é "neurose".
No
universo das Ciências Humanas, contudo, a religião acabou tornando-se
objeto de pesquisa. Que bom. A sociologia, por exemplo. Ela recusa-se a
tratar a religião como “conceito” ou “essência”, e observa,
apenas, casos concretos de religião. Naturalmente, que só há casos
concretos análogos de entidades universais. Mas a sociologia não está
interessada na abstração universal da coisa religiosa, mas nas
concretizações espaço-temporais dessa religião aqui e agora. E quer
pegar os sujeitos religiosos em plena experiência, de preferência, na
catarse profunda, ou no profundo da cosmovisão assumida. É como se a
religião se mostrasse em - como se ela fosse mesmo - essa catarse
lúdico-expressiva.
Já
o próprio sociólogo, não. Ele é um ser esclarecido. Com esclarecido,
leia-se um sujeito que passou pela educação humanista formal, doutrinado
dentro dos cânones pós-medievais da Revolução Francesa, fruto, a um
tempo, do Estado Democrático de Direito, e do aprofundamento romântico
constitutivo das Humanidades. Aí, o mundo está rachado ao meio, entre
mundo físico e mundo antropológico. Há o esclarecimento da física, e há
o esclarecimento dos níveis antropológicos.
O
profissional da religião, ampliando a figura do sociólogo, é um
entendido nas Ciências Humanas. Ele sabe do fenômeno. E sabe mesmo. Sabe
da dimensão psicológica a que se reduz o fenômeno religioso, sabe da
dimensão antropológica do fenômeno, sabe da dimensão sociológica, da
dimensão política, da dimensão filosófica. O que ele não sabe, nem
quer saber, nem pode, é da dimensão místico-metafísica, porque quer a
mística, quer a metafísica, são hipóstases fantásticas do sujeito
humano lúdico. O profissional respeita a experiência, mas não a
pratica.
O
religioso é entrevistado, e dá conta de sua leitura pessoal de sua
experiência, que se constitui um complexo de relações, a saber, desse
sujeito com sua própria experiência, desse sujeito com o testemunho das
experiências de seus co-irmãos de fé, e desse sujeito com a norma dogmático-política
da experiência de sua tradição. O religioso está ali, vivendo sua
experiência com toda a força mítica da religião. Está ali, vivendo
outro mundo – alienadamente, isto é, sem qualquer consciência do fenômeno
antropológico, sociológico, psicológico, político, a que se reduz sua
experiência religiosa. O cientista da religião sabe, mas não conta,
para não estragar a magia.
O
cientista, então, entrevistando o religioso desde dentro do mito, escreve
a entrevista, e a apresenta em ambientes não religiosos, e formalmente
constituídos para a narração do mito estudado – ou da “narrativa”
estudada: questão de nomenclatura. Os ouvintes, aí, tomam-se de duplo
sentimento. Primeiro, extasiam-se com a narrativa mítica, e quase
experimentam a nostalgia da inocência. Porque, alunos de cursos de Ciências
Humanas, especialistas nesse saber, sabem que o mito é uma cobertura
hermenêutico-traditiva para fenômenos prosaicos. Sejam imaginações
noológicas puras, traditivas, sejam hipóstases míticas de
acontecimentos e personagens históricas, sejam catarses psico-extáticas,
os especialistas e entendidos – eu entre eles – sabemos do que se
trata. Nesse primeiro momento, contudo, quase – quase – há uma osmose
mítica, uma nostalgia hierofânica, quase que um mistério se anuncia.
Mas logo se traz à baila o fato de que somos, afinal, pesquisadores, e
que sabemos do que se trata. Trata-se de um acontecimento prosaico, histórico,
cultural, político, semântico, que foi transformado em narrativa e mito.
Ou trata-se de um processo noológico fantástico, assumido como cosmovisão
traditiva. Nesse segundo momento, então, a religião é carcomida, e
tem-se, entre os dedos, os fenômenos como eles são – pedaços de carne
e sangue humanos, estendidos ao sol e ao vento da cultura, porque se sabe,
afinal, que religião é encenação profunda de gestos humanos.
Quero
chamar a atenção para o fato do papel curioso do especialista – eu
entre eles. Há uma dicotomia que eu diria reduzir-se ao seguinte: o
religioso estudado está alienado da compreensão antropológica de sua
experiência. Ele está em algum dia da Idade Média, ou da Patrística,
ou da Era Clássica, ou da Pré-História. Não chegou a ele o anúncio de
Nietzsche. Não chegou a ele o carrinho de biblioteca, cheio dos clássicos
das Ciências Humanas. Nada de Schopenhauer – O Mundo como Vontade e
Representação. Nada de Kant – Crítica da Razão Pura. Nada de Freud.
Nada de Nietzsche. Nada de Heidegger. Nada de Piaget. Nada de Marx, Weber
ou Durkheim. Nada de Feuerbach. A religião é experimentada na forma de
mito, sem a consciência de que se trate do mito que é. Do ponto de vista
dos processos de autocompreensão humanos, o sujeito religioso está
absolutamente alienado. O pesquisador, não. Ele sabe tanto de sua condição
histórico-cultural inexorável, quanto da de seu “objeto” de estudo,
o qual, contudo, alienado de sua condição material, hipostasia-se em
mito. E é justamente esse sujeito alienado que interessa ao pesquisador.
A
questão que me coloco é: a religião é inexoravelmente, alienação?
Caso o sujeito religioso esclareça-se de sua condição antropológica,
dissolve-se necessariamente a “sua” religião. Se sim, Marx estava
certo. Basta que a humanidade, ou melhor dito, que os homens e as mulheres
concretos do mundo, sejam “educados” dentro dos princípios das
Humanidades, e acaba a religião. As Ciências da Religião ou torçam
para a alienação eterna dos homens e das mulheres, ou morrerão, à
medida que os homens se esclareçam científico-humanísticamente.
Pergunto-me, contudo, acerca da possibilidade de o sujeito religioso
tornar-se esclarecido – e isso significa ser informado sobre a constituição
necessariamente antropológica, sociológica, psicológica, de sua experiência,
constituição que pode ser indicada, observada, ao passo que a imaginação
metafísica, resultado da assunção inconsciente e passiva do mito,
resulta apenas gozo estético.
Não
estou me perguntando, aqui, sobre a constituição além ou aquém-fenomênica
da experiência religiosa, que eu discutiria, contudo, em Fenomenologia da
Religião. Estou perguntando-me sobre a possibilidade – ou a
impossibilidade – de a religião do próprio religioso, enquanto se faz
sujeito religioso em ação, poder ser esclarecida, logo, desalienada. A
religião é, para sempre e eternamente, mundo mítico pré-moderno,
medieval, ou, antes, como todo e qualquer fenômeno antropológico, pode
ser esclarecida – e, claro, conseqüentemente, transformada – por meio
da educação humanista?
Ora,
as Ciências Humanas, quando assumidas pelo sujeito consciente, não
interditam a estética. O sujeito estético sabe como funciona a sua
experiência estética, sabe quase quais as regiões do cérebro a
produzem, e, contudo, ele goza – e tanto hoje quanto há dois mil anos.
Será a experiência religiosa tão incompatível com a lucidez humanista
que, ao simples passeio desse deus, no jardim, ela se esconda, medrosa?
Ora,
as Ciências Humanas, quando assumidas pelo sujeito consciente, não
interditam a política. Pelo contrário. Quanta luz os séculos viram
nascer, com as Ciências Humanas. Talvez, eu arriscaria, a Humanidade
ainda esteja por nascer, mais perto, agora, do que antes de 1789, por
assim dizer – ainda que, como sempre adverte Edgar Morin, um aborto lhe
ameace desde o útero dos tempos. E por que, então, a religião deveria
ser assumida como uma experiência politicamente cega, própria daquela
categoria de criaturas que, não sem um humor cáustico, Nietzsche
classificou de “besta de carga”?
Ora,
as Ciências Humanas, quando assumidas pelo sujeito consciente, não
interditam, mil vezes pelo contrário, a heurística. Elas são – devem
ser – pura heurística. E por que o ser religioso deve ser,
necessariamente, daquele tipo de criatura que não faz perguntas, senão
aquela quanto ao tempo da recepção da bênção de que ele se nutre, ou
morre?
Assumindo
que toda e qualquer experiência humana – incluída aí a experiência
religiosa – é, sempre, ou estética, ou política, ou heurística, e
tendo em vista que as Ciências Humanas sempre – absolutamente sempre
– podem e devem iluminar quaisquer das experiências humanas – estéticas,
políticas, heurísticas – onde está que o sujeito religioso deva
constituir-se, necessariamente, sob risco de dissipação da religião, em
sujeito alienado – alienado nos termos que aqui se consideram?
Não
é possível concluir pela impossibilidade do esclarecimento do sujeito
religioso. É forçoso concluir-se pela possibilidade do esclarecimento
“romântico” – científico-humanista – do ser religioso. O sujeito
religioso, histórico, cultural, esse aqui, aquele ali, eu, você,
qualquer um, sujeitos de religião concretas, podemos ser esclarecidos,
sim, por meio das Ciências Humanas, quanto aos constituintes biopsicológicos
e antropossociais. A recusa teórico-metodológica do pressuposto aqui
assumido implica, a meu ver necessariamente, numa dicotomia civilizatória
insuperável. De um lado, planetária, qual seja aquela pertinente às
relações entre Ocidente científico-humanista e Oriente (que lentamente,
e cada vez mais aceleradamente, contudo, vai tornando-se, também ele,
científico-humanista. Há, contudo, bolsões enormes de insuficiência
epistemológica científico-humanista em vastíssimas regiões do Oriente,
e, arrisco dizer, as amplidões místicas, admiradas secretamente por
especialistas do Ocidente, são justamente aquelas onde justamente a vida
humana ainda rasteja em níveis de epistemologia e ética inter-subjetiva
abaixo do tolerável).
Não
se trata de dizer – por favor – que seja função do cientista da
religião, educar científico-humanísticamente o sujeito religioso.
Trata-se, contudo, de o pesquisar, ele mesmo, não mitificar o sujeito com
quem lida, como se fora de uma espécie humana inferior, impossibilitado
de ter de si, sob perda de sua identidade religiosa, a consciência científico-humanista
que dele tem o seu cientista pessoal. Talvez corra-se o risco de manter-se
escondido aí, sob o véu da lucidez científico-humanista do pesquisador,
contra a alienação necessária e inexorável do sujeito religioso, uma
cosmovisão de resto ainda dicotômica da constituição da espécie política
humana: “nós” e “eles”.
Eu
insisto no valor da religião como fenômeno humano. A religião, a meu
ver, em sua forma fundamental, é, sempre, estética. Desdobra-se,
contudo, em política, e desenvolve-se entre momentos estéticos,
subjetivos, e políticos, intersubjetivos. Mas a religião pode, por isso
mesmo, desdobrar-se mais completamente – mais perfeitamente, eu diria
– também em experiência heurística, o que se traduziria pela tomada
da consciência do religioso do fenômeno histórico-cultural em que se
constitui sua própria experiência religiosa.
Estética,
política e heurística, as dimensões pragmáticas das experiências
religiosas não apenas podem – mas devem estar disponíveis na consciência
– na autocompreensão e na cosmovisão – do sujeito religioso. Caso não
estejam – todas, caso o ser religioso movimente-se apenas estética e
politicamente, mas não heuristicamente, devo admitir que tal sujeito é
– nesse sentido – alienado, porque a desalienação significa,
sobretudo, tomada de posse cognitiva da própria práxis, do próprio
corpo, do próprio pensamento.
Nesse
sentido, eu diria que o diagnóstico de Marx é perfeito para a religião
pré-moderna, e ainda é perfeitamente aplicável a toda e qualquer experiência
religiosa que, a despeito de expressar-se na “modernidade”,
articula-se por meio da episteme
mítico-metafísica pré-moderna. E estaria justificado se considerasse
injustificada a afirmação de que a experiência religiosa deve manter-se
inconscientemente mítica, para fazer-se, justamente – e por isso –
religiosa.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
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autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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