Teologia e Ciências da Religião

– sobre um artigo de Faustino Teixeira

Osvaldo Luiz Ribeiro

17/08/2007

 

 

 

Faustino TEIXEIRA, O Lugar da Teologia na(s) Ciência(s) da Religião, em Faustino TEIXEIRA (org), A(s) Ciência(s) da Religião no Brasil - afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 297-322.

 

 

 

Eu reconheço – talvez confesse – assumir uma postura bastante incisiva em sala de aula. Dir-se-ia aguerrida. Um aluno disse-a “apaixonada”. Aceito o diagnóstico. Tem-se afirmado, contudo, não dogmática. Aberta aos argumentos. Reflexiva. Crítica. Para alguns, heresia pura. Para outros, rebeldia, insubordinação, porque haveria um "Sagrado" conteudístico a que, então, eu devesse me adequar, chegando a "ele" por meio das milenares trepadeiras normativo-dogmáticas da tradição eclesiástica evangélico-protestante. Quanto à heresia, resta ver quem porta a garrucha, já que heresia é retórica do poder, e, pelo que me consta, o poder caiu em 1789. Quanto à insubordinação, resta perguntar a quem, já que não me consta constituírem-se alguns alunos e, eventualmente, seus “mestres”, porta-vozes de Deus, o qual, em meu mito, me incentiva dia a dia a questionar posições marcadas. O que eu faço com gosto.

 

No presente momento, uma sala inteira de alunos, uns quarenta, e eu lidamos institucionalmente com uma disciplina – Teologia Brasileira – que chegou a fazer parte da Grade Curricular do curso por causa de uma circunstância que eu diria político-partidária. Uma vez que ela está lá, e que me coube, por determinação superior, moderar a classe na sua aproximação ao tema, optei por começar o semestre com uma inquirição ao status da “Teologia”.

 

Primeiro, perguntei-nos quanto à validade, por exemplo, de uma expressão tal qual “Sociologia Brasileira” (poderia ser, de igual modo, "Antropologia Brasileira"). Chegamos à conclusão de que o termo é impróprio, porque Sociologia é Sociologia, seja no Brasil, seja na Finlândia, seja em Burkina Faso. O que há são “escolas” – weberiana, durkheimiana, marxiana, constantiniana, paretoniana, moriniana, florestaniana etc. O resultado possível, na melhor das hipóteses, seria uma "Sociologia florestaniana do Brasil", ou seja, uma Sociologia (macro-estrutura determinativa da “ciência” sociológica universal, ou, em outros termos, a câmara hiperônima científico-humanista a que se subsumem as aproximações "sociológicas" aos campos sociais) florestaniana (de uma escola sociológica orientada pela perspectiva de um sociólogo brasileiro, Florestan Fernandes) do Brasil (o campo social objeto da análise sociológico-florestaniana). Assim, uma "Sociologia Brasileira" não existe, senão abordagens sociológicas de  “sociologias” desenvolvidas e/ou operadas por brasileiros (definição limite, portanto, para a expressão alternativa "sociologias brasileiras".

 

Em seguida, propus a classificação da “Teologia” sob três modelos teóricos. Teologia como ontologia, Teologia como metáfora, e Teologia como fenomenologia. A primeira, é a clássica, mítico-metafísica, e remonta a Platão, pelo menos. Nela, a fé é ontológica. Aí cabem, desde Agostinho e Barth, até Tillich. A segunda é “pós-moderna” – termo horrível. Estabelece-se – retoricamente apenas? – uma disjunção, uma ruptura entre o discurso teológico em si, e o eventual objeto metafísico dessa linguagem, e a Teologia se transforma em palavras e espuma – metáfora. Em tese - e esse é o problema mais grave -, as palavras do discurso dessa Teologia constituem uma retórica dialógico-instrumental, com a qual se propõem posturas ético-políticas. Já há posições assim no Brasil, e Gianni Vattimo (cf. O Futuro da Religião) é um representante “importante” dessa retórica: Teologia como metáfora. Finalmente, a terceira – Teologia como fenomenologia –, cujo único representante que conheço – de o ter lido – é Hans Küng, e, ainda assim, apenas aquele que se expressa em Teologia a Caminho. Ali propugna-se uma teologia histórico-crítica, e manifesta-se pela convicção de que apenas essa deveria ter lugar na universidade. É necessário, contudo, ressalvar que a Teologia de Hans Küng, dado seu caráter teórico-metodológico histórico-crítico, é, necessariamente, uma "Teologia Bíblica", da qual, eventualmente, desdobrar-se-iam "reflexões teológicas". Uma "Teologia Histórico-Crítica", contudo, não garante as condições de sua própria instrumentalização posterior. Ela pode manter-se rigorosamente histórico-crítica, ou pode saltar de uma base histórico-crítica, para uma racionalização criptometafísica. O livrinho de Hans Küng, Por que Ainda Ser Cristão Hoje, particularmente o (nesse sentido) esclarecedor capítulo "Orientação Básica: onde encontrá-la" (p. 38-44) é, para dizer pouco, acentuadamente escorregadio, metafisicamente escorregadio. Talvez uma despreocupação epistemológica seja a responsável pela dubiedade do recorte teológico do texto, e Hans Küng esteja falando mais de seu mito pessoal do que fazendo Teologia Pública. Seja como for, a vibração que um discurso desse último tipo provoca em tímpanos vigilantes é de uma natureza absolutamente estranha àquelas produzidas por Teologia a Caminho.  

 

Não tem sido uma tarefa fácil dialogar com os alunos. Na última aula, Kenner estava “nervoso”. Kenner me parece sempre um pouco “incomodado” (nos diálogos que se seguiram à sua leitura do presente ensaio, ele se disse relativamente hiperativo). Talvez seja natural. Kenner tinha nas mãos A(s) Ciência(s) da Religião no Brasil, organizado pelo teólogo de formação (PUC-RJ e Gregoriana) Faustino Teixeira, professor do curso de Ciências da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora. Faustino Teixeira já esteve, uma vez, ao menos, no Seminário do Sul, para uma palestra. Foi ali que o conheci. Perguntei-lhe ao pé do ouvido se ele orava em público. Ele assentiu. Pedi que fizesse as honras. Ele orou. Também costumo perguntar aos alunos de desejam orar, antes do início das aulas. Eventualmente, digo a eles que, ali, a oração é apenas uma oportunidade, e não tem a intenção política de estabelecer posturas psicológicas de passividade intelectual, como se, depois de dirigirmo-nos ao “Pai”, esperássemos, agora, que ele se dirigisse a nós e... com a palavra o senhor professor. Teologia – e Teologia (na) prática – é exercício de pragmática política. Incontornavelmente. Assim, conscientemente, gosto de dar uma no cravo, e outra na ferradura.

 

Kenner tinha aberto o livro num artigo do próprio Faustino Teixeira: "O Lugar da Teologia na(s) Ciência(s) da Religião". Kenner interrompeu-me, educadamente, como sempre. Faustino seria um representante da Teologia como fenomenologia. Olhando para um lado e outro – alunos costumam buscar afirmação na face de colegas de turma, é natural –: Hans Küng não estava sozinho, e eu estava equivocado. Sempre é possível.

 

Eu tenho o livro que Kenner tinha aberto, enquanto retrucava. Eu já lera o artigo. Em 2002. Não chegara a comentá-lo nem a escrever alguma coisa a respeito, na ouviroevento, ainda que já resenhara comentários sobre o pronunciamento – o que eu mais esperava – de Faustino numa publicação conjunta dele, Boff e outros teólogos latino-americanos, quanto à posição fechada do Vaticano em relação às igrejas não-católicas.

 

Meu cérebro não se recordava rigorosamente do artigo. Mas, ali, de pé, diante da classe, pensei com meus botões. Eu me alio inegociavelmente à Teologia como fenomenologia. Meus olhos estão atrás disso – e só atrás disso - já há algum tempo. Eu já li o artigo. Se ali se desse o caso da defesa dessa posição teológica, eu teria identificado meu “rosto” nas páginas. Não foi o caso. Eu não acrescentara o artigo ao rol dos representantes da teologia histórico-crítica, inegociavelmente acadêmica, e Teologia a Caminho continuava solitária, sobre o altar. Kenner deve ter-me achado alguma coisa entre intransigente e autoritário.

 

Vou, agora, ao artigo. Releio-o. Eu estava certo – ainda é minha opinião -, e não se pode afirmar que o artigo seja uma defesa da Teologia como fenomenologia. Na verdade, o artigo não é sequer uma discussão sobre Teologia. O artigo está interessado em perguntar pela presença da Teologia entre as Ciência(s) da Religião (como Faustino prefere), mas não se pergunta, filosoficamente, epistemologicamente, sobre “o que é, afinal, Teologia”. Quando se termina de ler o artigo, tem-se a impressão de que Faustino trabalhou com um conceito de "Teologia" que, sou forçado a concluir, ele julgava ser aquele com que seus leitores o leriam. Somente quando se parte do pressuposto de que o conceito "ecossistêmico" - noológico, epistemológico - com o qual um termo é articulado encontra-se democratizado, e acha-se na posse dos interlocutores-alvo, é que se pode prescindir de assentar epistemológica e semanticamente bem esse termo. Caso locutor e interlocutores-alvo manejem o termo com - que sejam dois ou três - diferentes conceitos, torna-se absolutamente impossível não apenas a comunicação, mas, principalmente, o diálogo. 

 

Já o título é revelador. "Ciência(s) da Religião" – possibilidade plural. Mas: "Teologia", no singular. Pessoalmente, considero que o uso singular do termo Teologia impede absolutamente uma discussão razoavelmente bem fundamentada. O uso da palavra no singular exige que ela seja definida, para impedir equívocos. Tenho procurado definir Teologia na ouviroevento, justamente para que meu(s) - eventuais - leitor(es) não se traiam, nem sejam traídos. Para mim, Teologia é – sempre – discurso humano, mesmo quando se aceita relacionar Teologia e Fé, porque a Fé ainda é – sempre, inexoravelmente – discurso, doutrina, dogma, humano. E ainda que essa Teologia – qualquer que seja – pronuncie três vezes a palavra Deus, e isso num ecossistema noológico de persignações e genuflexões rituais.

 

O artigo de Faustino Teixeira parece-me uma tentativa de introduzir-se na discussão nevrálgica da presença da Teologia nos cursos da CAPES. Hoje, o Brasil está repleto de cursos de Teologia (CAPES), de um lado, e de cursos de Ciências da Religião (CAPES), do outro. Nos cursos de Teologia, as Ciências da Religião são – apenas e lamentavelmente – instrumentais. Aí, dogma continua sendo dogma, mais ou menos elástico. Quando se fazem as perguntas específicas, quando se interroga, quando se perquire, o dogma é confessado: “sem um núcleo proposicional revelado, não há cristianismo”. Nos cursos de Ciências da Religião, até onde sou informado, a Teologia está presente, quando está, mas de forma desconfortavelmente aceita. Ou seja, o amálgama é político. É forçado. Epistemologicamente, a situação é uma bomba relógio. As personalidades aturam-se, “civilizadamente”, mas, nos corredores, esboçam as impressões cáusticas inter-subjetivas.

 

É urgente – urgentíssimo – o enfrentamento epistemológico da questão. Aliás, esse é justamente o artigo de abertura do livro que o Kenner usava: "Em Busca de uma Cultura Epistemológica", de Luiz Felipe Pondé. Ora, a discussão epistemológica começa, justamente, pelo enfrentamento do status da “Teologia” – ops, das Teologias. Endossaria sem pestanejar a assertiva de Hans Küng quanto ao fato de que apenas uma Teologia acadêmica (histórico-crítica) deveria estar na academia – e Teologia acadêmica me parece aquela que aceita o jogo da academia. Uma Teologia que cuida saber – objetivo-fundalisticamente, que seja, analogicamente que seja, metaforicamente que seja – alguma coisa de Deus ou do “Sagrado” (Sagrado com “S” maiúsculo é sempre cooptação teológica da Fenomenologia da Religião) – um bilionésimo do Ser, ou todo Ele, não faz diferença – não deveria estar na universidade. Em se tratando de século XXI, já é muito que ainda esteja nos púlpitos. Tenho o direito de considerar que uma Teologia que ainda assim se considere constitua um perfeito exemplo – não inexoravelmente insuperável, contudo – da classificação de Marx da religião como alienação.

 

A confusão infernal começa quando se permite que o termo Teologia movimente-se desde as práticas populares da fé religiosa – a rigor, “teologia”, sim (e "popular", como o quer Bruno Forte, em Teologia em Diálogo, opúsculo que não esconde o recorte metafísico e normativo-dogmático da "Teologia" que faz) – até as proposições teórico-metodológicas sistemáticas dos profissionais da cátedra. Um inferno. Uma Teologia que comece a falar sem se fazer passar, ela mesma, pelo crivo das Ciências Humanas é capaz, com toda naturalidade do mundo, de considerar a crença pessoal em Deus uma “parte” necessária da reflexão teológica acadêmica, e mesmo uma sessão constitutiva da eidética teológica. Que a religião seja, ainda e até agora, alienação – o que não significa que essa seja a sua sina inexorável – é compreensível, afinal todas as religiões históricas parecem ter-se erguido sobre sistemas heterônomos e mitológicos de catequese e cosmovisão. Mas uma “Teologia” (?) alienada? Uma “Teologia” (?) que não “sabe” que seu discurso é imaginação humana e cultura normatizada? Uma “Teologia” (?) ingênua e inocente de sua constituição inexoravelmente, inextricavelmente, irresistivelmente histórico-cultural? Uma “Teologia” (?) que, no todo ou em parte(s), vê-se a si mesma como um terceiro olho de Lobsang Terça-Feira Rampa? Oh, sim, o Estado Democrático de Direito faz – muito – bem em proteger o direito de uma Teologia assim existir, e expressar-se – mas na academia? Oh, sim, o Estado Democrático de Direito permitiu, inclusive, que ela assuma cátedras – uma cristã, uma kardecista, uma umbandista, pelo que eu sei, mas, pelo amor de Deus, a “Teologia” vai assumir a cátedra como “saber”? Mas como? Tal saber é medieval, é mítico, é mágico. As Ciências Humanas sabem disso. A Teologia, se pretende constituir-se como tal – deve saber disso. E uma Teologia que sabe disso deve decidir-se pelo que fazer com isso.

 

Bem, o artigo de Faustino Teixeira discute “I. O estatuto epistemológico da teologia”. A rigor, por meio de teólogos. Com Clodovis Boff, adianta-se até a expressão “inteligência da fé” (p. 301). Convenhamos. O que significa “inteligência da fé”? Desde Judas – v. 3.5.17 – sabe-se que “fé” constitui um conjunto de palavras-discursos, tomadas como tendo sido pronunciadas pelos apóstolos, definitivas, uma vez por todas confiadas aos santos, das quais eles deviam se lembrar, e por ela, combater. Esse é um espírito apologético, que, vá lá, tenta-se justificar in loco. Mas uma “Teologia” que pretenda fazer-se na forma de “inteligência da fé” transforma-se em quê? Organização “crítica” de temas e textos à luz de uma determinada configuração? Compreende-se o vínculo medieval da postura. Hodiernamente, sabe-se, contudo, tratar-se uma tal coisa de racionalização. Por meio dela, pelagianos e agostinianos voltam todos os dias para seus lares, ciosos de sua missão apologética-racionalizadora bem cumprida. Por meio dela, Bento XVI acaba de pronunciar-se em nome de Jesus, o Cristo, que, a jogar o jogo de Roma, finalmente decidiu-se por considerar suas apenas as ovelhas católicas. Mas alto lá - igualmente por meio dela um sem número de teólogos evangélico-protestantes apresentar-se-ão como iguais - ai - representantes do mesmo - ai - Jesus, o Cristo, dizendo que não, Jesus não tem por suas apenas as ovelhas vaticanas. Segundo as revelações particularmente íntimas de alguns, a espécie vaticana de ovelhas, inclusive, sequer consta do registro do Senhor, o que resulta embaraçoso, porque já não é a questão de haver uma certa disparidade entre os discursos cristãos, mas o grave problema de Jesus andar a desdizer-se, conforme as bocas por meio das quais ele eventualmente se pronuncie. Questão de humor? 

 

Oh, sim, a serviço de todos esses pronunciamentos, posta-se uma "inteligência da fé", que se revela a mim algo muito próximo de uma racionalização apologética provinciana. E ainda que esses senhores muito íntimos do Sagrado cheguem a um acordo sobre, afinal, o que é que o Sagrado pensa quanto a essa e a outras questões de urgente relevância, nem assim, e nem em mil anos, um pronunciamento público que venham a fazer ganhará status para além de um jogo retórico-político de partidos religiosos hierocráticos. De minha parte, contentar-me-ia em recordar o direito que o Estado Democrático de Direito concede à encenação de um tal jogo. É lamentável, apenas, que as respectivas religiões - principalmente a cristã, muito ciosa de sua exclusividade ontológica - não assuma de vez o valor republicano. Bom seria, nesse sentido, que a estratégia dos programas de diálogo inter-religioso lograsse êxito, e a vontade ético-política de uma sociedade republicada, constituída sob o modelo de Estado Democrático de Direito, encontrasse, assim, eco social conscientemente produzido. Em termos constitucionais, trata-se de direitos civis. Na prática, vale a provocação - admoestação? - do agora senhor Ministro da Cultura, Gilberto Gil:

 

Eu até compreendo os salvadores profissionais

Sua feira de ilusões

Só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz

Deixa o outro vender limões

 

Um vende limões, o outro

Vende o peixe que quer

O nome de Deus pode ser Oxalá

Jeová, Tupã, Jesus, Maomé

Maomé, Jesus, Tupã, Jeová

Oxalá e tantos mais

Sons diferentes, sim, para sonhos iguais

(Gilberto Gil, Guerra Santa)   

 

Uma respeitável "inteligência da fé". Com a vantagem de poder ser manejada pelas Ciências Humanas. O que não é o caso, quero crer, da "Teologia" - pelo menos não de qualquer espécie de Teologia Metafísica, e ainda que se lhe façam ser acompanhada por volumes alfarrábicos de "inteligências da fé". Não há "inteligência" aí. Só fé. Aguardo o dia em que as Faculdades de Teologia brasileiras, aquelas já reconhecidas pelo Sistema Federal de Ensino/SESu, realizem um Congresso de Teologia. De qual céu se falará ali? De um onde mora um Senhor dos Dias, seu Filho, e mais alguns familiares (para alguns, a Mãe, presença que a outros soaria, contudo, herética)? Ou um céu de orixás da Umbanda, legitimamente credenciados e autorizados pela Portaria 3864/2003 do MEC? Oh, sim, no plano puramente ético-político, há mesmo congraçamentos entre teólogos das duas tradições, mas, ressalve-se, sem que os aprofundamentos epistemológicos, nevralgicamente indispensáveis às Ciências Humanas, revolvam a terra fofa de sob os pés litúrgicos em celebração da paz. Não me consta, contudo, que uma tal concessão possa ser feita durante uma reunião de teólogos advindos da academia. Ou lá se enfrentará, finalmente, a questão epistemológica de fundo, relacionada a um eventual estatuto acadêmico da teologia, durante cuja discussão finalmente os céus, todos, serão definitivamente fechados à perscrutação humana. Se um Congresso desses não chegar a fazê-lo, perdem-se as esperanças, e expressões tais como "inteligência da fé" continuarão a ser usadas para consagrar aparente racionalidade aos discursos "teológicos".  

 

Em seu artigo, Faustino insiste: “a teologia distingue-se igualmente das filosofias da religião e das outras produções das ciências humanas que tratam do ‘religioso’. A distinção com respeito à filosofia da religião refere-se ao objeto formal. O que confere pertinência ao saber teológico é a reflexão ‘à luz da fé’, enquanto que para o filósofo esta reflexão se dá ‘à luz da razão’” (p. 301). O que Clodovis Boff e Faustino Teixeira pretendem dizer com isso? O mesmo que Vattimo, quando usa o termo “hermenêutica”, em seu recente O Futuro da Religião, fazendo dela um conjunto de assertivas, como se a hermenêutica fosse um “discurso”? Ora, “fé” e “razão” transformaram-se em discursos de competência? Quando o “teólogo” analisa o que quer que deseje, à luz da fé, ele não analisa mais coisa alguma, mas apenas compara, seleciona, escrutina, julga, à luz de sua posição já marcada, como uma teopoética começa a fazer em nosso meio. Por sua vez, quando um filósofo pretende analisar o que quer que deseje “à luz da razão”, não se pode presumir que esteja efetuando tal análise por meio de algum conteúdo – situação em que se tornaria “literatura comparada”, por exemplo. Antes, deve-se interpretar que o filósofo esteja aplicando métodos epistemológicos ao tema, abordagens crítico-transdisciplinares ao tema. Ora, um teólogo que adentre a sala com um embornal de conteúdos “teológicos”, com os quais pretende analisar o que quer que esteja sobre a mesa, isso é “inteligência da fé” e “análise à luz da fé”. Mas, cá entre nós, isso em nada interessa à pesquisa. Quanto mais porque, se adentram, ao mesmo tempo, um teólogo cristão, formado numa das Faculdades de Teologia "cristãs", e um teólogo umbandista, formado FTU, de São Paulo, primeiro eles terão muito a discutir, com base em suas respectivas "inteligências da fé" e "análises à luz da fé", antes que possam sentar-se e dialogar, como "teólogos", com os demais "cientistas da religião".

 

Uma retórica desse tipo - "inteligência da fé" e "análise à luz da fé" - não encontra fundamento epistemológico no jogo das Ciências Humanas. Conseguia imiscuir-se aqui e ali, em cantos inexpressivos de uma posição auto-legitimadora, até percebida pelos não-teólogos, que, condescendentes, apenas esboçavam preocupações a respeito da pertinência da "colaboração" teológica à pesquisa. Contudo, agora que a Teologia está formalmente in, tais argumentos voltarão contra ela mesma, porque correr-se-á o risco de estampar a pouca inteligência epistemológica de que uma retórica dessa natureza se constitui. Ela não pode ser tocada - como agulhas de gipsita de profundíssimas cavernas -, ou se quebram, ao toque. São para serem proferidas, e, como que por mágica, reconhecidas. Seu jogo é o jogo da Teologia prática, em que, incensório nas mãos, à frente caminham os oráculos hierocráticos. Muito medieval a postura, não? 

 

Quando os alunos de Física da UERJ elaboram monografias de conclusão de curso sobre a teologia dos “fundadores” da Física moderna, desde Newton, não estão interessados justamente em pegar em flagrante casos de sobredeterminação da “fé” ao objeto de pesquisa da Física? Ilya Prigogine já não fez as advertências necessárias a respeito de, por exemplo, a desvalorização ontológica do Tempo, na Física de Newton, ser tributária do fato de Newton operar (conscientemente?, inconscientemente?) com e na a plataforma teológica do Cristianismo, em sua concepção dogmático-filosófica e parmenidesiana de “Ser” – Deus – atemporal? Ora, considerar-se que cada “cientista” da religião – inclusive um teólogo histórico-crítico –, esteja carregado de pressupostos “perigosos” para a necessária objetividade pretendida – possível? – pela pesquisa é legítimo e conveniente, uma vez que a neutralidade absoluta é teoricamente impossível. Mas daí a tergiversar com uma “inteligência da fé” e com uma “análise à luz da fé”, apresentados como registros operacionais da “Teologia”, e isso enquanto essa “Teologia” faz-se “parceira” na e da pesquisa, parece-me tão somente um gesto polido e político.

 

Mais à frente, Faustino recorre à Claude Geffré para, agora, acessar a “Teologia” por meio da “hermenêutica” – que em Geffré já dá mostras do risco de converter-se em “discurso”, em mirada engajada, antes que faculdade da consciência epistemológica do ser-no-mundo. A impressão que eu tenho é que, se Geffré tropeça, cai em cima de Vattimo, e , se gagueja, solfeja A Idade da Interpretação. Segundo Faustino, Geffré tem na hermenêutica “o esforço permanente que anima o trabalho dos seres humanos em traduzir verdades antigas numa linguagem acessível” (p. 304). Com isso, põe-se, mais uma vez, o risco da fé – melhor do que a inteligência da fé –, o perigo da fé – melhor do que inteligência da fé –, já que uma Teologia, agora histórico-crítica, não está nem um pouco interessada em “traduzir verdades antigas numa linguagem acessível”. Como assim “verdades”? Para uma Teologia como fenomenologia – e, no caso “cristão”, apenas uma Teologia histórico-crítica – o conteúdo dos textos escriturísticos não são tomados como “verdades” antigas, mas, apenas, como pronunciamentos histórico-sociais antigos, que, sim, necessitam de clarificação semântica, tão somente em decorrência da distância geográfico-temporal entre os discursos originais – Escrituras como “fala” histórico-social – e os ouvintes atuais, eventualmente interessados. Não há que se pretender – e isso constituiria um risco, um perigo, uma ameaça à pesquisa, inclusive no que diz respeito à ética – tomar tais pronunciamentos, quaisquer que sejam, como “verdades antigas”. Nem uma Teologia histórico-crítica, nem as Ciências da Religião trabalham ao nível das "verdades" subjetivo-hermenêuticas humanas. Tão somente elas servem-se delas, para, com elas, por meio delas, chegarem a uma melhor configuração do seu recorte heurístico-objetivo.

 

Nenhum historiador tomaria os textos mesopotâmicos como verdades antigas. São o que são: discursos e documentos antigos, proposições antigas. Por que um “teólogo” teria o direito estatutário de tomar os pronunciamentos escriturísticos como verdades antigas? Nenhum. Pelo menos não na academia. Na “religião”, vá lá. Se um teólogo achega-se à roda dos cientistas da religião – nos moldes pretendidos (quero crer) pela CAPES e pela SESu – e tem de determinada afirmação escriturística uma consideração dela como verdade, por exemplo, “o Senhor é bom”, o que isso quer dizer? Está-se, nessa roda, estudando “o Senhor”? A “fé” do teólogo? Nem uma coisa nem outra. Estuda-se, apenas, a declaração do “salmista”. O fato de o teólogo crer da mesma forma que o salmista – e tal afirmação em si já é absolutamente retórica, porque o Yahweh do salmista não tem relações noológicas com o “Senhor” do teólogo cristão, senão vínculos retórico-político-traditivos – não se traduz em qualquer base heurística para a pesquisa. É fé pessoal dele? Não me diz respeito. Da Igreja, e ele a carrega? Menos ainda. Se o teólogo vai ajuntar-se à roda da pesquisa, seja bem-vindo (e eu me conto entre os teólogos!), mas não como um homem que carrega uma fé, mas como pesquisador que tenha como contribuir para a compreensão do fenômeno. E aqui se deveria discutir, seriamente, em que pode um teólogo ajudar, quando ele deixa sua fé pessoal do outro lado da sala. O que é, afinal, “Teologia” – fé racionalizada? Racionalização traditivo-normativa e fideísta-voluntarista? Serve-lhe para “viver melhor”? Ótimo. Mas – para a pesquisa, não tem serventia. Salvo, naturalmente, se essa própria fé tornar-se “case” para pesquisa. Há mesmo casos que mereciam uma.

 

Avançando, Faustino pretende discutir “2. O lugar e a função da teologia entre as demais disciplinas da ciência da religião: um balanço”. De um lado, os teólogos, críticos das ciências da religião (um Henrique Cláudio de Lima Vaz). De outro, um “cientista da religião”, crítico da teologia (um Frank Usarski). Entre os “dois”, um Etienne Alfred Higuet. Faustino o põe nessa situação, argumentando que seria o seu arrazoado contrário: a) à distinção das "ciências hermenêuticas" como não-científicas, b) à interdição da transcendência pela epistemologia científica, e sua conseqüente má vontade para com a “Teologia”, e c) à incontornável oficialização dos discursos teológicos, agora, cada vez mais “personalistas” e, conseqüentemente, livres do dogma e da política de normatização teológica. Higuet basear-se-ia em Tillich, por exemplo.

 

Bem, se eu alcanço os argumentos, preciso enfrentá-los. Primeiro, a discussão sobre o caráter científico das “ciências duras”, de um lado, e das “ciências moles”, de outro, ou, dito de outro modo, entre “ciências na natureza”, ditas de laboratório, ou exatas, ditas de prancheta, de um lado, e “ciências humanas”, ditas “do espírito”, de outro. Higuet coloca-se na linha de uma série de enfrentamentos críticos do ciúme científico do século XX. Estou inteirado da questão através de, pelo menos três fontes. A mais popular, Rubem Alves, e seu Filosofia da Ciência, na verdade, um manual de desmistificação das ciências duras, que procura a “conciliação” entre as duas dimensões heurísticas do espectro científico do século XX pela redução das ciências duras à relativização epistemológica das “moles”. O que o livro tem de bom é justamente poder abaixar o nariz das ciências duras, mas em absolutamente nada resolve a questão epistemológica de fundo – o critério de verdade nas ciências, principalmente as "moles".

 

Não é o caso de A Transformação da Filosofia, de Karl-Otto Apel. Apel está interessado em analisar a crise de verificação das Ciências Humanas, sem transformá-las em “ciências duras”, e sem reduzir as “ciências duras” a elas. São saberes distintos, e precisam ser analisados em conjunto, mas sob suas próprias bases, e umas pelas outras. As Ciências Humanas não podem constituir-se sem as Ciências Naturais, tanto quanto as Ciências Naturais não podem constituir-se sem as Ciências Humanas. Apel contorna Gadamer, Wittgenstein, contorna o pragmatismo de Rorty – e tenta – apenas tenta – assentar um critério sociológico para a verdade das Ciências Humanas, que, contudo, jamais as reduzisse a mera crença e consenso comunitário.

 

Finalmente – e, sob o risco de meu juízo pessoal – o “monstro” Edgar Morin, e o fenômeno O Método 1-6, que refunda o pensamento na matéria, contornando o “cogito” cartesiano como instrumento epistemológico seguro, e dissolvendo o conceito de “ser” estático na idéia de sistemas emergentes. No sistema epistemológico dO Método, os “deuses” são tomados como seres noológicos. A “Teologia”, enquanto “fé” – logo, doutrina, crença em idéias – tem aí, na noosfera humana, sua contra-parte metafísico-topográfica.

 

Em nenhuma das discussões, “Teologia” pode-se colocar impunemente ao lado das Ciências Humanas, como pretensamente envolvida na questão do estatuto científico das “ciências hermenêuticas”. Antes de o argumento ser expresso, obriga-se o argumentando a definir “Teologia” – e, desde logo, uma “Teologia” de recorte metafísico, mitigado que seja por uma postura pretensamente analógica ou metafórica, está fora do círculo das “ciências hermenêuticas”. Uma Teologia que seja exegese histórico-crítica das Escrituras – logo, controlada pelas Ciências Humanas, ela mesmo, nesse caso, uma dentre elas – Exegese –, como pretende e postula Hans Küng, sim, pode. Uma “História da Teologia” – em si uma subdisciplina da História, sim. Mas uma expressão qualquer da “fé”, inteligência da fé, análise à luz da fé, nada disso tem assento à mesa das ciências hermenêuticas.

 

Pessoalmente, e quero crer, as Ciências Humanas, não podem, ainda, tergiversar com o “transcendente”. O “mito” conteudístico que recobre, como véu, o assombro metafísico de um homem, de uma mulher, não tem validade como saber. “Saber”, aí, seria saber-se mito, e nada mais. Não se pode ultrapassar o primeiro Kant, senão por meio dele mesmo. Não se pode ultrapassar Schopenhauer e Feuerbach (a tentativa de "ultrapassagem" que Hans Küng ensaiou, de forma perigosamente breve, em Por que Ainda ser Cristão Hoje?, p. 40, é muito arriscada, e epistemologicamente insegura), senão por meio deles. Esquecê-los é uma maldição. Recalcá-los, patológico. O desejo humano de transcendência pode e deve constituir-se objeto de pesquisa, e, até, motor de pesquisa – mas não deuteragonista dela. Insights mitológicos, cosmovisões metafísicas e diálogos da alma – de que também eu padeço! – não podem, sob nenhuma hipótese, ter a pretensão de se constituírem como saber, e exigir assento à mesa. Uma “Teologia” inocente e ingênua quanto a seu discurso é alienação – e como pode constituir-se em processo de desalienação de si e de terceiros? Como pode constituir-se em ferramenta heurística uma situação de self deception?

 

E mais: o fato de a Teologia sair do controle de Roma ou de Witemberg, e cair no controle subjetivo de personalidades livres, em nada acrescenta a ela que lhe permita converter-se - não por isso - em “saber” (cf. meu Crer e Saber - – ensaio e nudez alguma coisa entre intempestivos e extemporâneos). Uma metafísica normativa e uma metafísica subjetiva, poética, metafórica, dê-se-lhe o nome que convier, são o que são – metafísica. Noologia, idéia, mito, riscos de giz na lousa das catequeses.

 

Finalmente, seria muito bom ter Tillich sentado à mesa. Mas não o primeiro, lamento dizer. Aliás, ele mesmo o diz. Já na sua maturidade de teólogo – e eu diria, maturidade do “último teólogo ontológico”, isto é, do tipo que chegou ao limite da tensão elástica da criatividade retórica da metafísica engajada e ciosa de si, milímetro após o qual a magia se rompe, e mostra-se como mito –, Tillich aceitou a crítica de seu amigo de cátedra, que lhe classificou como “um teólogo provinciano”. Que tenha doído é o menos importante. Que Tillich tenha olhado para dentro de si, e concordado, isso, sim, faz sentido. Tillich sempre soube que, afinal, era um articulador de temas da fé cristã, um pregador de estilo, um homem comprometido com uma cosmovisão fixa, que, talvez, pudesse fazer sentido “hoje”. Seus ouvintes dividiam-se em resistentes – herege! – e comovidos – gênio! Os dois grupos, contudo, estavam no mesmo mundo: a metafísica cristã, de dois mil anos.

 

Tillich talvez chegasse a decidir-se a abrir mão de uma Teologia metafísica. Que decisão teria sido! Transformaria sua “Teologia” em "Fenomenologia da Religião”, caso não conseguisse unir as duas. Viajou ao Japão. Começou um “diálogo” – agora, sim, “isso” começava a esboçar-se como um diálogo, ouvir o outro para transformar-se. Aproximou-se de Mircea Eliade, que lhe escreveu o prefácio de The Future of Religions, obra “póstuma”, de 1966. “Nunca saberemos qual teria sido o resultado do encontro de Tillich com as religiões primitivas e orientais. Porém é muito significativo que antecipara o papel decisivo de tais confrontações, não somente para os teólogos cristãos, mas também para o mundo inteiro. Na realidade, já nos estamos aproximando de uma cultura planetária, e em breve, inclusive os historiadores, filósofos ou teólogos mais  ‘localistas’ se verão obrigados a analisar seus problemas e a apresentar suas convicções em um diálogo aberto com colegas de outros continentes e crentes de outras religiões” (p. 14). Ah. Como é simbólico que a obra póstuma de Tillich, e sua (quem sabe?) provável abertura à ruptura radical do provincialismo da Teologia – e da sua própria Teologia! – seja marcado pelo comentário fraterno de Mircea Eliade. Um marco. Mas eu não estou tão certo, nem tenho tanto do entusiasmo de Eliade, quanto a uma futura - agora impossível - Teologia fenomenológica da parte de Tillich (cf. meu Por uma Teologia Pós-metafísica - diálogo com um epílogo circunstancial).

 

Minha opinião – talvez a Teologia que Tillich viesse a construir, depois de 1965, pudesse ser chamada de “Teologia como fenomenologia”, e, assim, ter assento entre os cientistas da religião. Antes, Tillich, admitiu, ele não fazia ciência. Tentava é juntar dois continentes, o velho – teológico – e o novo – epistemológico. Manejava, contudo, o timão, desde o primeiro, metafísico. Esforçou-se. Foi preciso um marinheiro adverti-lo. Fora um bom capitão. Talvez trocasse de timão, agora. Mas Deus o levou antes. Nunca saberemos.

 

Eu me pergunto se a Teologia, mesmo essa que freqüenta nossas cátedras, tem de si a consciência que devia. Pergunto-me se nós, teólogos, sabemos que estamos presos numa armadilha epistemológica. Não vejo força sendo feita para sairmos do “buraco” provinciano em que estamos – Tillich talvez viesse a tentar (tenho dúvidas graves), mas morreu antes. Vejo-nos manipulando expressões, articulando plataformas, engendrando fórmulas, ensaiando argumentos. E para o quê? Para nos mantermos onde estamos, e nos sentarmos, nós e nossa fé – mito – como “cientistas”. Ora, não é a fé – doutrina – que nos fará cientistas, mas a conversão inadiável à epistemologia crítica, científico-humanista, da qual a fé – a crença em materializações noológicas da esperança – não faz, absolutamente parte.

 

É necessária outra relação de argumentos para que a Teologia possa legitimar-se na távola de Arthur. Não estou seguro, por exemplo, se há avanço real com Antônio Gouvêa Mendonça, nos termos em que Faustino instrumentaliza os seus argumentos. Citando-o indiretamente, afirma: “uma reflexão que se mantém vinculada aos imprescindíveis laços da fé e da revelação, mas que guarde sua autonomia e liberdade face a qualquer autoridade” (p. 309). Higuet recorrera à questão da autoridade, como se a liberdade da fé concedesse estatuto diferenciado à Teologia. Não, não concede. A Teologia de Roma é tão mitológica quanto a Teologia de Huss, ou de um camponês do MST. Ah, além de que ambas são estético-políticas. A novidade do argumento de Mendonça é a expressão “imprescindíveis laços da fé”. Carecem de explicação. Laços da fé são laços de tradição. Tradição é discurso humano tomado politicamente. Necessária. Mas nada além disso. Ponto de partida da cultura, mediação da e para a cultura. O ser humano – Homo religiosus – sim, vincula-se a materializações da fé – cosmovisões metafísico-religiosas. Mas esse vínculo não é heurístico, não tem função heurística – é estético, e pode ser, e é, instrumentalizado politicamente. Heuristicamente, a fé que um cristão tenha em Deus, ou que um africano tenha em Exu, ou um ateu tenha no Não-Ser – em absolutamente nada, de nenhum modo, é “condição” estatutária para a vinculação da Teologia às Ciências Humanas – pelo contrário. O teólogo até pode entrar na sala, mas Deus, Exu e o Não-Ser devem ficar aguardando do lado de fora da porta, quem sabe, talvez, conversando sobre o tempo ou a política.

 

Enquanto expressões legítimas da experiência humana, como a arte – e, a me ver, a experiência religiosa primária é estética – a “fé” (já, então, política), é uma constituinte de sociedade. Mas, assim como a dona de casa de Rubem Alves deve aprumar-se, para fazer ciência, o beato religioso, também. Idem, para o místico. Profetas, sacerdotes, fiéis, crentes, beatos, monges, leigos, clérigos – não fazem ciência. As pessoas que se constituem como tal, no jogo social, podem fazer ciência – mas não nessa e por meio dessa condição. E o argumento da assumida e reconhecida impossibilidade de imparcialidade, neutralidade e objetividade imprescindíveis, metodologicamente, à epistemologia científica – dura ou mole – não é argumento para tolerar-se a intromissão de sistemas de “fé” – mitigados pelas personalidades “livres” dos teólogos – no processo heurístico da ciência. Não é porque se corre o risco de, no frigir dos ovos, trair-se pela própria cosmovisão assumida como metodologicamente suspensa que se vai abrir a sala para quem pretenda, axiologicamente, pronunciar desde sua “fé”. Um místico - São João da Cruz - já disse (saberia ele do que dizia?) que, para se chegar onde não se sabe, deve-se ir por onde não se sabe. Ora, a Teologia tanto sabe, quanto sabe por onde ir. Fazer-se ciência, para a Teologia, significa assumir que não sabe. Nessa Teologia, essa que não sabe, nem como ir, nessa eu creio. Dessa eu gosto. Essa sou eu.

 

Despedindo-se de Mendonça, Faustino toma, agora,  Pierre Gisel, teólogo protestante: “o que a teologia capta é também e sempre o ponto de vista do ser humano” (p. 310). O que uma tal afirmação, contudo, significa? Bem, a seguir, Faustino articula os argumentos de Gisel, que desembocam no seguinte. As ciências da religião estão interessadas na dimensão antropológica do fenômeno religioso, colocando entre parêntesis uma possível adesão sua ao dado transcendente do discurso teológico manejado no fenômeno. Numa palavra: as ciências da religião levam a sério a experiência religiosa do sujeito, mas não seu discurso metafísico. O risco, segundo Faustino afirma de Gisel, é que o cientista não compreenda o religioso, ou o reduza a uma caricatura. “Por sua vez, o engajamento da teologia se dá a partir da interioridade de uma fé determinada, o que não significa, porém, que ela deva transcender a racionalidade pública, sob o risco de se fechar numa auto-afirmação sobrenatural” (p. 311). Se entendo, e se me faço entender, trata-se de o teólogo brincar de mito pessoal, mas manejar discursos públicos assépticos. Internamente, ele mantém ligações mágico-míticas com o estado de espírito do sujeito religioso, mas o registro público de sua inserção dá-se por meio do discurso “científico”.

 

Não se trata, aí, de esquizofrenia? Insisto: como pode o cientista – se o é, e, ainda que teólogo, se deseja sentar-se à mesa das ciências, deve considerar-se um cientista –, esclarecido antropologicamente de sua condição de Homo religiosus, esclarecido do mito em que gravita sua “fé”, permitir que essa “fé”, como se saber fosse, chegue a se imiscuir no processo heurístico de compreensão do real? Não já é bastante que o próprio sujeito religioso sob análise seja flagrado em plena alienação antropológica, quando em sua experiência religiosa nua, própria da condição epistemológica pré-medieval, ainda que no século XXI? Deve o próprio teólogo manter-se pré-medieval, sob risco de não “compreender” a religião, ou caricaturá-la? Gostaria de ouvir como é possível que a alienação auto-imposta, metodologicamente assumida, possa esclarecer elementos da experiência religiosa, na plataforma epistemológica das Ciências Humanas.

 

O teólogo Pierre Gisel de Faustino vê Deus. Ainda se fala, aí, de “irrupção de Deus na história” (p. 311) – e isso como proposição filosófica de fé teológica! Ainda não se chegou a crer em Kant, em Schopenhauer, em Feuerbach, em Nietzsche, em Freud, em Marx, em Edgar Morin – e quer-se fazer ciência? Assim? Não, os senhores citados não acabam com a religião e a fé – eles dão-lhe nome, e era para nós, teólogos, aceitamos a evidência. Iuris esperniandi constitui um direito – não, um argumento.

 

Finalmente, Faustino Teixeira apresenta sua própria posição, na defesa da presença da Teologia entre as Ciência(s) da Religião – ele mesmo um Teólogo de formação, assim como vou me constituindo, oficialmente, “teólogo” de formação, ambos em doutorados em Teologia – ainda que o meu, em Bíblia Hebraica:  

Não existe teólogo, nem cientista das religiões, nem autoridade religiosa ou política que se situe acima de todas as religiões e seja capaz de julgá-las ‘objetivamente’. Quem pensa estar de forma ‘neutra’ acima de todas as tradições, não descobrirá nada em nenhuma delas. E quem (...) olhando da própria janela para a totalidade, se nega a dialogar com os outros, que também olham por suas janelas, e acha que pode dominar e julgar tudo, certamente perdeu o chão firme sob seus pés: como Ícaro, suas asas de cera derreterão ao sol da verdade (p. 313).

 

O tom soa bastante pessoal e polêmico. Quase como se constituísse uma defesa do direito de estar lá, teólogo, entre os cientistas. Eu insisto: não se trata de negar o discurso ao “teólogo” – eu mesmo sou um, e quer-me parecer que eu tente, aqui, fazer "ciência da religião" (e, para mim, ela começa com epistemologia). Trata-se de dizer a nós, teólogos, que o que interessa à ciência não é nossa crença pessoal. O que pensamos de Deus, dos anjos, do mal, da verdade, do pecado, nada disso interessa. Não somos, nós teólogos, objetos da pesquisa. Interessa à ciência perguntar a nós, teólogos, se temos algo a contribuir, epistemologicamente, metodologicamente, com o acesso “científico” ao real – e, convenhamos, a fé não constitui qualquer tipo de acesso científico ao real, ainda que o estudo do sistema de crenças de uma cultura, heuristicamente dirigido, possa traduzir-se em enorme contribuição para a compreensão do ser do homem no mundo.

 

Assim, não é o caso de retóricas afetadas quanto à condição de mônada de cada ser humano. Não se trata dessa questão. Brancos e negros podem sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Ideólogos de direita e de esquerda podem sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Teístas e ateus podem sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Não como brancos e negros, de direita ou de esquerda, religiosos ou ateus – mas como cientistas. Sim, suas particularidades culturais, políticas, sociais, hão de produzir ruído - que bom! - na pesquisa, a qual, desde o início, sabe disso e espera por isso. Mas eles não estão ali por causa dos ruídos. Logo, não é porque são teólogos que podem – podemos, os teólogos – sentarmo-nos à mesa: mas, justamente, a despeito disso.

 

Assumamos: a Teologia é uma invenção pré-moderna. A “ciência”, não exatamente, já que com "ciência" quer-se indicar para um recorte epistemológico heurístico preciso e específico da modernidade. Ou a Teologia faz-se "ciência" - e "ciência moderna" -, ou não pode, não, sentar-se à mesa. E fé não é ciência. De nenhum tipo. Nenhum tipo de fé. Nenhum tipo de ciência. E tanto que, se súbito, a "ciência" mostra-se como fé, mostra que vestia mortalhas, e errava, louca. Parece ser o caso de uma "ciência" que tem horror filosófico ao Tempo, porque tem pruridos criptoteológicos alguma coisa entre inconscientes e inconfessáveis. 

 

Veja que, na terceira parte do artigo, Faustino trata da teologia das religiões como algo que se dá “no plano de Deus” – aqui ele cita Geffré (p. 314). Não considero heurística essa afirmação – ela é política, porque a mesa terá de aceitar a fórmula “plano de Deus” como um dado, e tal expressão não passa de mito (em sentido bastante frio, inclusive), assumido pela fé, e racionalizado na "Teologia". Mais à frente, encaminha-se para assumir a teologia das religiões como a análise “sobre o significado e o valor das tradições religiosas mundiais à luz da revelação cristã” – aqui Faustino cita Jacques Dupuis. A rigor – eu quero insistir nesse ponto – trata-se de uma escola de etiqueta teológica, cujo resultado é a abertura de visão – sempre fechada – dos teólogos, que contudo, é difícil de se lograr. No plano da cultura, o Estado Democrático de Direito já obriga a Teologia a comportar-se bem à mesa dos comensais. Todo esse esforço da “teologia das religiões” reduz-se a uma tentativa de alcançar o mesmo objetivo, imposto de fora, como que de dentro, e por meio de uma epistemologia doméstica – “à luz da revelação cristã”. Para que serve uma teologia das religiões, à luz da teologia cristã? Para convencer teólogos. A quê? A que considerem um certo valor, mais ou menos, das religiões que não aquela sua? Tarefa atrasada, porque, quer-me parecer que a Revolução Francesa forçou-nos a tanto, e um certo liberalismo filosófico inglês chegou até a criar protestantismos “democráticos” – devagar, nem tanto, que, na prática, teocracias sacerdotais democráticas findam por constituir sistemas dissimulados de hierocracia: ainda que contra os documentos constitutivos das instituições.

 

Enquanto a Teologia for plataforma de argumento para a própria Teologia, enquanto os argumentos da Teologia forem argumentos teológicos – epistemologia teológica, ética teológica, método teológico – a Teologia estará imprestável para o diálogo com a Ciência. Bastará que soem, à mesa, essas quatro expressões constrangedoras: "inteligência da fé" (p. 301), "reflexão 'à luz da fé'" (p. 301), "irrupção de Deus na história e (...) sinais históricos dessa presença" (p. 311) "no plano de Deus" (p. 314) e "à luz da revelação cristã" (p. 314) para que seja o caso de um espetáculo de menear incontido de cabeças, a que eu - um teólogo - de bom grado me furtaria. A meu ver, o MEC – todos os seus órgãos – bem fizeram em forçar a reunião. A Teologia está aí - cristãos e umbandistas entre os cientistas. Mas, cá entre nós, que balbúrdia! A Teologia devia abrir-se aos sistemas amigos – todos –, como pressupõe o Teorema de Gödel (aqui referido por meio de Edgar Morin, um apud que eu espero corrigir um dia), porque ela, sozinha, jamais poderá asseverar sua verdade, sua fé, seus mitos, para além de seu apego neurótico a eles. A Teologia deve rasgar-se desde dentro, e converter-se ao Humano, sem tergiversações, sem escamoteações, sem subterfúgios. Barth nos custou cem anos. Mais cem será uma desgraça.

 

(...)

 

Não era possível dizer tudo isso ao Kenner, em cinco minutos. Talvez ele me chegue a ler, e, então, terá minha resposta, e ela aqui vai com toda paixão e risco. E consciência de sua possibilidade de erro. Que contudo, deve ser assinalado epistemologicamente, não por meio de afirmações de fé. A um teólogo que me afirme que algo que eu diga ou pense não tem consistência "à luz da fé", ou "no plano de Deus", eu perguntaria se o colega tem consciência do fundamento de sua própria crença, e de onde ele teria tirado a idéia de que eu esteja interessado nela. Agora, se a questão for teórico-metodológica, se o problema mostrar-se epistemológico, se o eventual equívoco de minha posição for científico-humanisticamente determinado, agradeço, e começo o caminho, tudo outra vez. E talvez - quem sabe? - Deus vá comigo.

 

Imagine-se uma mesa de “ciências da religião”, animada à luz da fé, e divisando as questões “no plano de Deus”. Se eu, como sujeito livre, religioso, sim, místico, excessivamente, eu diria, teólogo, por vício da boca e tortura da mente, a mim não se me dá o que a fé pessoal de João tem a me dizer – imagine-se a essa mesa de supostos cientistas o que teria a dizer a crença de um teólogo cioso de sua fé e tradição. O quê? Abaixariam todos os olhos, contritos, e orariam? O quê? Corrigiriam as hipóteses, em convergência à fé exposta e nua sobre a mesa? O quê? Sorririam, constrangidos, dariam uns dez segundos, e continuariam de onde pararam?

 

Uma Teologia Brasileira não há. Nem jamais haverá. Quando a Teologia é, por exemplo, “romana”, mesmo quando em solo brasileiro, ainda assim é teologia medieval – de Nicéia. Não me consta que Nicéia seja uma vila brasileira. Se a Teologia transformar-se, como se quer aqui e ali, em metáfora, em palavras retóricas, com as quais se organizam comunidades não mais sob o poder do dogma, mas sob o poder do carisma – Gadamer, não é conveniente esquecer, está interessado na relação entre tradição e ser-no-mundo. Chega quase a ser reacionária, a sua metodologia. E uma metaforização da Teologia não me parece estar a serviço da libertação radical, mas da instrumentalização, por outros poderes, das velhas “verdades” –, do poder profético, a que, an passant, referiu-se Faustino, nem aí levanta-se uma Teologia Brasileira. Quando uma Teologia como metáfora me fala da articulação local – supostamente gertziana, a posição – dos fundamentos universais da fé, pergunto-me o que isso significa, em termos políticos. Porque essa só pode ser uma estratégia política.

 

Finalmente, se a Teologia tornar-se fenomenologia – e, em termos cristãos, exegese, não haverá jamais uma Teologia Brasileira, conquanto brasileiros possam vir a fazer boa exegese e Teologia Histórico-crítica. E, eventualmente, criar mitos utópicos, obviamente.

 

Não sentimos, nós teólogos, a dor das Ciências Humanas até o fundo. Não acreditamos em – porque não entendemos – o que significa, para nós, principalmente para nós, a declaração nietzscheana da morte de Deus. Deus tornou-se, na Teologia, depois de Nietzsche, um joão-bobo. Cada vez que ele é socado, e cai, torna a levantar-se, paródia. E não nos damos conta disso, porque, afinal, ainda pensamos "à luz da fé", e no horizonte de um deus nosso, feito à nossa imagem e semelhança.

 

© Osvaldo Luiz Ribeiro

– autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações no texto –

– página atualizada em 08/09/2007 23:45:52