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Teologia
e Ciências da Religião
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sobre um artigo de Faustino Teixeira
Osvaldo
Luiz Ribeiro
17/08/2007
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Faustino
TEIXEIRA, O Lugar da Teologia na(s) Ciência(s) da Religião, em
Faustino TEIXEIRA (org), A(s) Ciência(s) da Religião no
Brasil - afirmação de uma área acadêmica. São Paulo:
Paulinas, 2001, p. 297-322.
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Eu
reconheço – talvez confesse – assumir uma postura bastante incisiva
em sala de aula. Dir-se-ia aguerrida. Um aluno disse-a “apaixonada”.
Aceito o diagnóstico. Tem-se afirmado, contudo, não dogmática. Aberta aos argumentos.
Reflexiva. Crítica. Para alguns, heresia pura. Para outros, rebeldia,
insubordinação, porque haveria um "Sagrado" conteudístico a
que, então, eu devesse me adequar, chegando a "ele" por meio
das milenares trepadeiras normativo-dogmáticas da tradição
eclesiástica evangélico-protestante. Quanto à heresia, resta ver quem porta a garrucha, já
que heresia é retórica do poder, e, pelo que me consta, o poder caiu em
1789. Quanto à insubordinação, resta perguntar a quem, já que não me
consta constituírem-se alguns alunos e, eventualmente, seus “mestres”,
porta-vozes de Deus, o qual, em meu mito, me incentiva dia a dia a
questionar posições marcadas. O que eu faço com gosto.
No
presente momento, uma sala inteira de alunos, uns quarenta, e eu lidamos
institucionalmente com uma disciplina – Teologia Brasileira – que
chegou a fazer parte da Grade Curricular do curso por causa de uma circunstância
que eu diria político-partidária. Uma vez que ela está lá, e que me coube, por
determinação superior, moderar a classe na sua aproximação ao tema,
optei por começar o semestre com uma inquirição ao status
da “Teologia”.
Primeiro,
perguntei-nos quanto à validade, por exemplo, de uma expressão tal qual “Sociologia Brasileira”
(poderia ser, de igual modo, "Antropologia Brasileira").
Chegamos à conclusão de que o termo é impróprio, porque Sociologia é
Sociologia, seja no Brasil, seja na Finlândia, seja em Burkina Faso. O
que há são “escolas” – weberiana, durkheimiana, marxiana,
constantiniana, paretoniana, moriniana, florestaniana etc. O resultado possível,
na melhor das hipóteses, seria uma "Sociologia florestaniana do
Brasil", ou
seja, uma Sociologia (macro-estrutura determinativa da “ciência”
sociológica universal, ou, em outros termos, a câmara hiperônima
científico-humanista a que se subsumem as aproximações
"sociológicas" aos campos sociais) florestaniana (de uma escola
sociológica orientada pela
perspectiva de um sociólogo brasileiro, Florestan
Fernandes) do Brasil (o campo social objeto da análise
sociológico-florestaniana).
Assim, uma "Sociologia Brasileira" não existe, senão
abordagens sociológicas de “sociologias” desenvolvidas e/ou
operadas por brasileiros (definição limite, portanto, para a expressão
alternativa "sociologias brasileiras".
Em
seguida, propus a classificação da “Teologia” sob três modelos teóricos.
Teologia como ontologia, Teologia como metáfora, e Teologia como fenomenologia. A primeira,
é a clássica, mítico-metafísica, e remonta a Platão, pelo menos. Nela, a fé é ontológica. Aí cabem, desde Agostinho e
Barth, até Tillich. A segunda é “pós-moderna” – termo horrível. Estabelece-se – retoricamente apenas? – uma disjunção, uma ruptura
entre o discurso teológico em si, e o eventual objeto metafísico dessa
linguagem, e a Teologia se transforma em palavras e espuma – metáfora.
Em tese - e esse é o problema mais grave -, as palavras do discurso dessa
Teologia constituem uma retórica dialógico-instrumental, com a qual se
propõem posturas ético-políticas. Já há posições assim no Brasil, e Gianni Vattimo
(cf. O Futuro da Religião) é um representante
“importante” dessa retórica: Teologia como metáfora. Finalmente, a
terceira – Teologia como fenomenologia –, cujo único representante
que conheço – de o ter lido – é Hans Küng, e, ainda assim, apenas
aquele que se expressa em Teologia a
Caminho. Ali propugna-se uma teologia histórico-crítica, e
manifesta-se pela convicção de que apenas essa
deveria ter lugar na universidade. É necessário, contudo, ressalvar que
a Teologia de Hans Küng, dado seu caráter teórico-metodológico
histórico-crítico, é, necessariamente, uma "Teologia
Bíblica", da qual, eventualmente, desdobrar-se-iam "reflexões
teológicas". Uma "Teologia Histórico-Crítica", contudo,
não garante as condições de sua própria instrumentalização
posterior. Ela pode manter-se rigorosamente histórico-crítica, ou pode
saltar de uma base histórico-crítica, para uma racionalização
criptometafísica. O livrinho de Hans Küng, Por que Ainda Ser Cristão
Hoje, particularmente o (nesse sentido) esclarecedor capítulo
"Orientação Básica: onde encontrá-la" (p. 38-44) é, para
dizer pouco, acentuadamente escorregadio, metafisicamente escorregadio.
Talvez uma despreocupação epistemológica seja a responsável pela
dubiedade do recorte teológico do texto, e Hans Küng esteja falando mais
de seu mito pessoal do que fazendo Teologia Pública. Seja como for, a
vibração que um discurso desse último tipo provoca em tímpanos
vigilantes é de uma natureza absolutamente estranha àquelas produzidas
por Teologia a Caminho.
Não
tem sido uma tarefa fácil dialogar com os alunos. Na última aula, Kenner
estava “nervoso”. Kenner me parece sempre um pouco “incomodado”
(nos diálogos que se seguiram à sua leitura do presente ensaio, ele se
disse relativamente hiperativo). Talvez seja natural. Kenner tinha nas mãos A(s)
Ciência(s) da Religião no Brasil, organizado pelo teólogo de formação
(PUC-RJ e Gregoriana) Faustino Teixeira, professor do curso de Ciências da Religião na
Universidade Federal de Juiz de Fora. Faustino Teixeira já esteve, uma
vez, ao menos, no Seminário do Sul, para uma palestra. Foi ali que o
conheci. Perguntei-lhe ao pé do ouvido se ele orava em público. Ele
assentiu. Pedi que fizesse as honras. Ele orou. Também costumo perguntar
aos alunos de desejam orar, antes do início das aulas. Eventualmente, digo a eles que, ali,
a oração é apenas uma oportunidade, e não tem a intenção política
de estabelecer posturas psicológicas de passividade intelectual, como se,
depois de dirigirmo-nos ao “Pai”, esperássemos, agora, que ele se
dirigisse a nós e... com a palavra o senhor professor. Teologia – e
Teologia (na) prática – é exercício de pragmática política.
Incontornavelmente. Assim, conscientemente, gosto de dar uma no cravo, e
outra na ferradura.
Kenner
tinha aberto o livro num artigo do próprio Faustino Teixeira: "O Lugar da
Teologia na(s) Ciência(s) da Religião". Kenner interrompeu-me,
educadamente, como sempre. Faustino seria um representante da Teologia
como fenomenologia. Olhando para um lado e outro – alunos costumam
buscar afirmação na face de colegas de turma, é natural –: Hans Küng
não estava sozinho, e eu estava equivocado. Sempre é possível.
Eu
tenho o livro que Kenner tinha aberto, enquanto retrucava. Eu já lera o
artigo. Em 2002. Não chegara a comentá-lo nem a escrever alguma coisa a respeito,
na ouviroevento, ainda que já resenhara comentários sobre o
pronunciamento – o que eu mais esperava – de Faustino numa publicação
conjunta dele, Boff e outros teólogos latino-americanos, quanto à posição
fechada do Vaticano em relação às igrejas não-católicas.
Meu
cérebro não se recordava rigorosamente do artigo. Mas, ali, de pé,
diante da classe, pensei com meus botões. Eu me alio inegociavelmente à
Teologia como fenomenologia. Meus olhos estão atrás disso – e só atrás
disso - já há algum tempo. Eu já li o artigo. Se ali se desse o caso da defesa dessa posição teológica,
eu teria identificado meu “rosto” nas páginas. Não foi o caso. Eu não
acrescentara o artigo ao rol dos representantes da teologia histórico-crítica,
inegociavelmente acadêmica, e Teologia
a Caminho continuava solitária, sobre o altar. Kenner deve ter-me
achado alguma coisa entre intransigente e autoritário.
Vou,
agora, ao artigo. Releio-o. Eu estava certo – ainda é minha opinião -, e
não se pode afirmar que o artigo seja uma defesa da Teologia como
fenomenologia. Na verdade, o artigo não é sequer uma discussão sobre
Teologia. O artigo está interessado em perguntar pela presença da
Teologia entre as Ciência(s) da Religião (como Faustino prefere), mas não
se pergunta, filosoficamente, epistemologicamente, sobre “o que é, afinal, Teologia”.
Quando se termina de ler o artigo, tem-se a impressão de que Faustino
trabalhou com um conceito de "Teologia" que, sou forçado a
concluir, ele julgava ser aquele com que seus leitores o leriam.
Somente quando se parte do pressuposto de que o conceito
"ecossistêmico" - noológico, epistemológico - com o qual um
termo é articulado encontra-se democratizado, e acha-se na posse dos
interlocutores-alvo, é que se pode prescindir de assentar epistemológica
e semanticamente bem esse termo. Caso locutor e interlocutores-alvo
manejem o termo com - que sejam dois ou três - diferentes conceitos,
torna-se absolutamente impossível não apenas a comunicação, mas,
principalmente, o diálogo.
Já
o título é revelador. "Ciência(s) da Religião" – possibilidade plural.
Mas: "Teologia", no singular. Pessoalmente, considero que o uso singular do
termo Teologia impede absolutamente uma discussão razoavelmente bem
fundamentada. O uso da palavra no singular exige que ela seja definida,
para impedir equívocos. Tenho procurado definir Teologia na ouviroevento,
justamente para que meu(s) - eventuais - leitor(es) não se traiam, nem sejam traídos.
Para mim, Teologia é – sempre – discurso humano, mesmo quando se
aceita relacionar Teologia e Fé, porque a Fé ainda é – sempre,
inexoravelmente – discurso, doutrina, dogma, humano. E ainda que essa
Teologia – qualquer que seja – pronuncie três vezes a palavra Deus, e
isso num ecossistema noológico de persignações e genuflexões rituais.
O
artigo de Faustino Teixeira parece-me uma tentativa de introduzir-se na
discussão nevrálgica da presença da Teologia nos cursos da CAPES. Hoje,
o Brasil está repleto de cursos de Teologia (CAPES), de um lado, e de
cursos de Ciências da Religião (CAPES), do outro. Nos cursos de Teologia,
as Ciências da Religião são – apenas e lamentavelmente –
instrumentais. Aí, dogma continua sendo dogma, mais ou menos elástico.
Quando se fazem as perguntas específicas, quando se interroga, quando se
perquire, o dogma é confessado: “sem um núcleo proposicional revelado,
não há cristianismo”. Nos cursos de Ciências da Religião, até onde
sou informado, a Teologia está presente, quando está, mas de forma
desconfortavelmente aceita. Ou seja, o amálgama é político. É forçado.
Epistemologicamente, a situação é uma bomba relógio. As personalidades
aturam-se, “civilizadamente”, mas, nos corredores, esboçam as impressões
cáusticas inter-subjetivas.
É
urgente – urgentíssimo – o enfrentamento epistemológico da questão.
Aliás, esse é justamente o artigo de abertura do livro que o Kenner
usava: "Em Busca de uma Cultura Epistemológica", de Luiz Felipe Pondé.
Ora, a discussão epistemológica começa, justamente, pelo enfrentamento
do status da “Teologia” –
ops, das Teologias. Endossaria sem pestanejar a assertiva de Hans Küng
quanto ao fato de que apenas uma Teologia acadêmica (histórico-crítica)
deveria estar na
academia – e Teologia acadêmica me parece aquela que aceita o jogo da
academia. Uma Teologia que cuida saber – objetivo-fundalisticamente, que seja,
analogicamente que seja, metaforicamente que seja – alguma coisa
de Deus ou do “Sagrado” (Sagrado com “S” maiúsculo é sempre
cooptação teológica da Fenomenologia da Religião) – um bilionésimo
do Ser, ou todo Ele, não faz
diferença – não deveria estar na universidade. Em se tratando de século
XXI, já é muito que ainda esteja nos púlpitos. Tenho o direito de
considerar que uma Teologia que ainda assim se considere constitua um
perfeito exemplo – não inexoravelmente insuperável, contudo – da
classificação de Marx da religião como alienação.
A
confusão infernal começa quando se permite que o termo Teologia
movimente-se desde as práticas populares da fé religiosa – a rigor,
“teologia”, sim (e "popular", como o quer Bruno Forte, em Teologia
em Diálogo, opúsculo que não esconde o recorte metafísico e
normativo-dogmático da "Teologia" que faz) – até as proposições teórico-metodológicas
sistemáticas dos profissionais da cátedra. Um inferno. Uma Teologia que
comece a falar sem se fazer passar, ela mesma, pelo crivo das Ciências
Humanas é capaz, com toda naturalidade do mundo, de considerar a crença
pessoal em Deus uma “parte” necessária da reflexão teológica acadêmica,
e mesmo uma sessão constitutiva da eidética teológica. Que a religião
seja, ainda e até agora, alienação – o que não significa que essa
seja a sua sina inexorável – é compreensível, afinal todas as religiões
históricas parecem ter-se erguido sobre sistemas heterônomos e mitológicos de catequese e
cosmovisão. Mas uma “Teologia” (?) alienada? Uma “Teologia” (?)
que não “sabe” que seu discurso é imaginação humana e cultura
normatizada? Uma “Teologia” (?) ingênua e inocente de sua constituição
inexoravelmente, inextricavelmente, irresistivelmente histórico-cultural?
Uma “Teologia” (?) que, no todo ou em parte(s), vê-se a si mesma como
um terceiro olho de Lobsang Terça-Feira Rampa? Oh, sim, o Estado Democrático
de Direito faz – muito – bem em proteger o direito de uma Teologia
assim existir, e expressar-se – mas na academia? Oh, sim, o Estado
Democrático de Direito permitiu, inclusive, que ela assuma cátedras –
uma cristã, uma kardecista, uma umbandista, pelo que eu sei, mas, pelo
amor de Deus, a “Teologia” vai assumir a cátedra como “saber”?
Mas como? Tal saber é medieval, é mítico, é mágico. As Ciências
Humanas sabem disso. A Teologia, se pretende constituir-se como tal –
deve saber disso. E uma Teologia que sabe disso deve decidir-se pelo que
fazer com isso.
Bem,
o artigo de Faustino Teixeira discute “I. O estatuto epistemológico da
teologia”. A rigor, por meio de teólogos. Com Clodovis Boff, adianta-se
até a expressão “inteligência da fé” (p. 301). Convenhamos. O que significa
“inteligência da fé”? Desde Judas
– v. 3.5.17 – sabe-se que “fé” constitui um conjunto de
palavras-discursos, tomadas como tendo sido pronunciadas pelos apóstolos,
definitivas, uma vez por todas confiadas aos santos, das quais eles deviam
se lembrar, e por ela, combater. Esse é um espírito apologético, que,
vá lá, tenta-se justificar in loco. Mas uma “Teologia” que pretenda fazer-se na forma de “inteligência da fé” transforma-se em quê? Organização “crítica”
de temas e textos à luz de uma determinada configuração? Compreende-se
o vínculo medieval da postura. Hodiernamente, sabe-se, contudo, tratar-se
uma tal coisa de racionalização. Por meio dela, pelagianos e
agostinianos voltam todos os dias para seus lares, ciosos de sua missão
apologética-racionalizadora bem cumprida. Por meio dela, Bento XVI acaba
de pronunciar-se em nome de Jesus, o Cristo, que, a jogar o jogo de Roma,
finalmente decidiu-se por considerar suas apenas as ovelhas católicas.
Mas alto lá - igualmente por meio dela um sem número de teólogos
evangélico-protestantes apresentar-se-ão como iguais - ai -
representantes do mesmo - ai - Jesus, o Cristo, dizendo que não, Jesus
não tem por suas apenas as ovelhas vaticanas. Segundo as revelações
particularmente íntimas de alguns, a espécie vaticana de ovelhas,
inclusive, sequer consta do registro do Senhor, o que resulta embaraçoso,
porque já não é a questão de haver uma certa disparidade entre os
discursos cristãos, mas o grave problema de Jesus andar a desdizer-se,
conforme as bocas por meio das quais ele eventualmente se pronuncie.
Questão de humor?
Oh, sim, a serviço de
todos esses pronunciamentos, posta-se uma "inteligência da
fé", que se revela a mim algo muito próximo de uma racionalização
apologética provinciana. E ainda que esses senhores muito íntimos do Sagrado cheguem a
um acordo sobre, afinal, o que é que o Sagrado pensa quanto a essa e a outras questões de urgente relevância, nem assim, e nem em mil anos, um
pronunciamento público que venham a fazer ganhará status para
além de um jogo retórico-político de partidos religiosos hierocráticos.
De minha parte, contentar-me-ia em recordar o direito que o Estado
Democrático de Direito concede à encenação de um tal jogo. É
lamentável, apenas, que as respectivas religiões - principalmente a
cristã, muito ciosa de sua exclusividade ontológica - não assuma de vez
o valor republicano. Bom seria, nesse sentido, que a estratégia dos
programas de diálogo inter-religioso lograsse êxito, e a vontade
ético-política de uma sociedade republicada, constituída sob o modelo
de Estado Democrático de Direito, encontrasse, assim, eco social
conscientemente produzido. Em termos constitucionais, trata-se de direitos
civis. Na prática, vale a provocação - admoestação? - do agora senhor
Ministro da Cultura, Gilberto Gil:
Eu
até compreendo os salvadores profissionais
Sua
feira de ilusões
Só
que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz
Deixa
o outro vender limões
Um
vende limões, o outro
Vende
o peixe que quer
O
nome de Deus pode ser Oxalá
Jeová,
Tupã, Jesus, Maomé
Maomé,
Jesus, Tupã, Jeová
Oxalá
e tantos mais
Sons
diferentes, sim, para sonhos iguais
(Gilberto
Gil, Guerra Santa)
Uma
respeitável "inteligência da fé". Com a vantagem de poder ser
manejada pelas Ciências Humanas. O que não é o caso, quero crer, da
"Teologia" - pelo menos não de qualquer espécie de Teologia
Metafísica, e ainda que se lhe façam ser acompanhada por volumes
alfarrábicos de "inteligências da fé". Não há
"inteligência" aí. Só fé. Aguardo o dia em que as Faculdades
de Teologia brasileiras, aquelas já reconhecidas pelo Sistema Federal de
Ensino/SESu, realizem um Congresso de Teologia. De qual céu se falará
ali? De um onde mora um Senhor dos Dias, seu Filho, e mais alguns
familiares (para alguns, a Mãe, presença que a outros soaria, contudo,
herética)? Ou um céu de orixás da Umbanda,
legitimamente credenciados e autorizados pela Portaria 3864/2003 do MEC?
Oh, sim, no plano puramente ético-político, há mesmo congraçamentos
entre teólogos das duas tradições, mas, ressalve-se, sem que os
aprofundamentos epistemológicos, nevralgicamente indispensáveis às
Ciências Humanas, revolvam a terra fofa de sob os pés litúrgicos em
celebração da paz. Não me consta, contudo, que uma tal concessão possa
ser feita durante uma reunião de teólogos advindos da academia. Ou lá
se enfrentará, finalmente, a questão epistemológica de fundo,
relacionada a um eventual estatuto acadêmico da teologia, durante cuja
discussão finalmente os céus, todos, serão definitivamente fechados à
perscrutação humana. Se um Congresso desses não chegar a fazê-lo,
perdem-se as esperanças, e expressões tais como "inteligência da
fé" continuarão a ser usadas para consagrar aparente racionalidade
aos discursos "teológicos".
Em
seu artigo, Faustino insiste: “a teologia distingue-se igualmente das filosofias da religião e das
outras produções das ciências humanas que tratam do ‘religioso’. A
distinção com respeito à filosofia da religião refere-se ao objeto
formal. O que confere pertinência ao saber teológico é a reflexão ‘à
luz da fé’, enquanto que para o filósofo esta reflexão se dá ‘à
luz da razão’” (p. 301). O que Clodovis Boff e Faustino Teixeira pretendem dizer com
isso? O mesmo que Vattimo, quando usa o termo “hermenêutica”, em seu
recente O Futuro da Religião,
fazendo dela um conjunto de assertivas, como se a hermenêutica fosse um
“discurso”? Ora, “fé” e “razão” transformaram-se em
discursos de competência? Quando o “teólogo” analisa o que quer que
deseje, à luz da fé, ele não analisa mais coisa alguma, mas apenas
compara, seleciona, escrutina, julga, à luz de sua posição já marcada, como uma teopoética
começa a fazer em nosso meio. Por sua vez, quando um filósofo pretende
analisar o que quer que deseje “à luz da razão”, não se pode
presumir que esteja efetuando tal análise por meio de algum conteúdo –
situação em que se tornaria “literatura comparada”, por exemplo.
Antes, deve-se interpretar que o filósofo esteja aplicando métodos
epistemológicos ao tema, abordagens crítico-transdisciplinares ao tema.
Ora, um teólogo que adentre a sala com um embornal de conteúdos “teológicos”,
com os quais pretende analisar o que quer que esteja sobre a mesa, isso é
“inteligência da fé” e “análise à luz da fé”. Mas, cá entre
nós, isso em nada interessa à pesquisa. Quanto mais porque, se adentram,
ao mesmo tempo, um teólogo cristão, formado numa das Faculdades de
Teologia "cristãs", e um teólogo umbandista, formado FTU, de
São Paulo, primeiro eles terão muito a discutir, com base em suas
respectivas "inteligências da fé" e "análises à luz da
fé", antes que possam sentar-se e dialogar, como
"teólogos", com os demais "cientistas da religião".
Uma
retórica desse tipo - "inteligência da fé" e "análise
à luz da fé" - não encontra fundamento epistemológico no jogo das
Ciências Humanas. Conseguia imiscuir-se aqui e ali, em cantos
inexpressivos de uma posição auto-legitimadora, até percebida pelos
não-teólogos, que, condescendentes, apenas esboçavam preocupações a
respeito da pertinência da "colaboração" teológica à
pesquisa. Contudo, agora que a Teologia está formalmente in, tais
argumentos voltarão contra ela mesma, porque correr-se-á o risco de
estampar a pouca inteligência epistemológica de que uma retórica dessa
natureza se constitui. Ela não pode ser tocada - como agulhas de gipsita
de profundíssimas cavernas -, ou se quebram, ao toque. São para serem
proferidas, e, como que por mágica, reconhecidas. Seu jogo é o jogo da
Teologia prática, em que, incensório nas mãos, à frente caminham os
oráculos hierocráticos. Muito medieval a postura, não?
Quando
os alunos de Física da UERJ elaboram monografias de conclusão de curso
sobre a teologia dos “fundadores” da Física moderna, desde Newton, não
estão interessados justamente em pegar em flagrante casos de
sobredeterminação da “fé” ao objeto de pesquisa da Física? Ilya
Prigogine já não fez as advertências necessárias a respeito de, por
exemplo, a desvalorização ontológica do Tempo, na Física de
Newton, ser tributária do fato de Newton operar (conscientemente?,
inconscientemente?) com e na a plataforma teológica do Cristianismo, em sua
concepção dogmático-filosófica e parmenidesiana de “Ser” – Deus – atemporal? Ora, considerar-se que cada “cientista” da religião –
inclusive um teólogo histórico-crítico –, esteja carregado de
pressupostos “perigosos” para a necessária objetividade pretendida
– possível? – pela pesquisa é legítimo e conveniente, uma vez que a
neutralidade absoluta é teoricamente impossível. Mas daí a tergiversar
com uma “inteligência da fé” e com uma “análise à luz da fé”,
apresentados como registros operacionais da “Teologia”, e isso enquanto essa “Teologia” faz-se
“parceira” na e da
pesquisa, parece-me tão somente um gesto polido e político.
Mais
à frente, Faustino recorre à Claude Geffré para, agora, acessar a
“Teologia” por meio da “hermenêutica” – que em Geffré já dá
mostras do risco de converter-se em “discurso”, em mirada engajada,
antes que faculdade da consciência epistemológica do ser-no-mundo. A impressão que
eu tenho é que, se Geffré tropeça, cai em cima de Vattimo, e , se
gagueja, solfeja A
Idade da Interpretação. Segundo
Faustino, Geffré tem na hermenêutica “o esforço permanente que anima
o trabalho dos seres humanos em traduzir verdades antigas numa linguagem
acessível” (p. 304). Com isso, põe-se, mais uma vez, o risco da fé
– melhor do que a inteligência da fé –, o perigo da fé
– melhor do
que inteligência da fé –, já que uma Teologia, agora histórico-crítica,
não está nem um pouco interessada em “traduzir verdades antigas numa
linguagem acessível”. Como assim “verdades”? Para uma Teologia como
fenomenologia – e, no caso “cristão”, apenas uma Teologia histórico-crítica
– o conteúdo dos textos escriturísticos não são tomados como
“verdades” antigas, mas, apenas, como pronunciamentos histórico-sociais
antigos, que, sim, necessitam de clarificação semântica, tão somente
em decorrência da distância geográfico-temporal entre os discursos
originais – Escrituras como “fala” histórico-social – e os
ouvintes atuais, eventualmente interessados. Não há que se pretender –
e isso constituiria um risco, um perigo, uma ameaça à pesquisa,
inclusive no que diz respeito à ética – tomar tais pronunciamentos,
quaisquer que sejam, como “verdades antigas”. Nem uma Teologia
histórico-crítica, nem as Ciências da Religião trabalham ao nível das
"verdades" subjetivo-hermenêuticas humanas. Tão somente elas
servem-se delas, para, com elas, por meio delas, chegarem a uma melhor
configuração do seu recorte heurístico-objetivo.
Nenhum
historiador tomaria os textos mesopotâmicos como verdades antigas. São o
que são: discursos e documentos antigos, proposições antigas. Por que
um “teólogo” teria o direito estatutário de tomar os pronunciamentos
escriturísticos como verdades antigas? Nenhum. Pelo menos não na
academia. Na “religião”, vá lá. Se um teólogo achega-se à roda
dos cientistas da religião – nos moldes pretendidos (quero crer) pela CAPES
e pela SESu – e
tem de determinada afirmação escriturística uma consideração dela
como verdade, por exemplo, “o Senhor é bom”, o que isso quer dizer?
Está-se, nessa roda, estudando “o Senhor”? A “fé” do teólogo?
Nem uma coisa nem outra. Estuda-se, apenas, a declaração do
“salmista”. O fato de o teólogo crer da mesma forma que o salmista
– e tal afirmação em si já é absolutamente retórica, porque o
Yahweh do salmista não tem relações noológicas com o “Senhor” do
teólogo cristão, senão vínculos retórico-político-traditivos – não se
traduz em qualquer base heurística para a pesquisa. É fé pessoal dele?
Não me diz respeito. Da Igreja, e ele a carrega? Menos ainda. Se o teólogo
vai ajuntar-se à roda da pesquisa, seja bem-vindo (e eu me conto entre os
teólogos!), mas não como um homem
que carrega uma fé, mas como pesquisador que tenha como contribuir para a
compreensão do fenômeno. E aqui se deveria discutir, seriamente, em que
pode um teólogo ajudar, quando ele deixa sua fé pessoal do outro lado da
sala. O que é, afinal, “Teologia” – fé racionalizada? Racionalização
traditivo-normativa e fideísta-voluntarista? Serve-lhe para “viver
melhor”? Ótimo. Mas – para a pesquisa, não tem serventia. Salvo,
naturalmente, se essa própria fé tornar-se “case” para pesquisa. Há
mesmo casos que mereciam uma.
Avançando,
Faustino pretende discutir “2. O lugar e a função da teologia entre as
demais disciplinas da ciência da religião: um balanço”. De um lado,
os teólogos, críticos das ciências da religião (um Henrique Cláudio
de Lima Vaz). De outro, um “cientista da religião”, crítico da
teologia (um Frank Usarski). Entre os “dois”, um Etienne Alfred Higuet.
Faustino o põe nessa situação, argumentando que seria o seu arrazoado contrário:
a) à distinção das "ciências hermenêuticas" como
não-científicas, b) à interdição da transcendência pela epistemologia científica, e sua
conseqüente má vontade para com a “Teologia”, e c) à incontornável
oficialização dos discursos teológicos, agora, cada vez mais
“personalistas” e, conseqüentemente, livres do dogma e da política
de normatização teológica. Higuet basear-se-ia em Tillich, por exemplo.
Bem,
se eu alcanço os argumentos, preciso enfrentá-los. Primeiro, a discussão
sobre o caráter científico das “ciências duras”, de um lado, e das “ciências moles”, de outro, ou, dito de outro modo, entre “ciências
na natureza”, ditas de laboratório, ou exatas, ditas de prancheta, de
um lado, e “ciências humanas”, ditas “do espírito”, de outro. Higuet coloca-se na linha de uma série de
enfrentamentos críticos do ciúme científico do século XX. Estou
inteirado da questão através de, pelo menos três fontes. A mais
popular, Rubem Alves, e seu Filosofia
da Ciência, na verdade, um manual de desmistificação das ciências
duras, que procura a “conciliação” entre as duas dimensões heurísticas
do espectro científico do século XX pela redução das ciências duras
à relativização epistemológica das “moles”. O que o livro tem de
bom é justamente poder abaixar o nariz das ciências duras, mas em
absolutamente nada resolve a questão epistemológica de fundo – o critério
de verdade nas ciências, principalmente as "moles".
Não
é o caso de A Transformação da
Filosofia, de Karl-Otto Apel. Apel está interessado em analisar a
crise de verificação das Ciências Humanas, sem transformá-las em “ciências
duras”, e sem reduzir as “ciências duras” a elas. São saberes
distintos, e precisam ser analisados em conjunto, mas sob suas próprias
bases, e umas pelas outras. As Ciências Humanas não podem constituir-se sem
as Ciências Naturais, tanto quanto as Ciências Naturais não podem
constituir-se sem as Ciências Humanas. Apel contorna Gadamer,
Wittgenstein, contorna o pragmatismo de Rorty – e tenta – apenas
tenta – assentar um critério sociológico para a verdade das Ciências
Humanas, que, contudo, jamais as reduzisse a mera crença e consenso comunitário.
Finalmente
– e, sob o risco de meu juízo pessoal – o “monstro” Edgar Morin,
e o fenômeno O Método 1-6, que
refunda o pensamento na matéria, contornando o “cogito” cartesiano
como instrumento epistemológico seguro, e dissolvendo o conceito de
“ser” estático na idéia de sistemas emergentes. No sistema epistemológico
dO Método, os “deuses” são
tomados como seres noológicos. A “Teologia”, enquanto “fé” –
logo, doutrina, crença em idéias – tem aí, na noosfera humana, sua
contra-parte metafísico-topográfica.
Em
nenhuma das discussões, “Teologia” pode-se colocar impunemente ao lado das Ciências
Humanas, como pretensamente envolvida na questão do estatuto científico
das “ciências hermenêuticas”. Antes de o argumento ser expresso,
obriga-se o argumentando a definir “Teologia” – e, desde logo, uma
“Teologia” de recorte metafísico, mitigado que seja por uma postura
pretensamente analógica ou metafórica, está fora do círculo das “ciências
hermenêuticas”. Uma Teologia que seja exegese histórico-crítica das
Escrituras – logo, controlada pelas Ciências Humanas, ela mesmo, nesse
caso, uma dentre elas – Exegese –, como pretende e postula Hans Küng,
sim, pode. Uma “História da Teologia” – em si uma subdisciplina da
História, sim. Mas uma expressão qualquer da “fé”, inteligência da
fé, análise à luz da fé, nada disso tem assento à mesa das ciências
hermenêuticas.
Pessoalmente,
e quero crer, as Ciências Humanas, não podem, ainda, tergiversar com o
“transcendente”. O “mito” conteudístico que recobre, como véu, o
assombro metafísico de um homem, de uma mulher, não tem validade como
saber. “Saber”, aí, seria saber-se mito, e nada mais. Não se pode
ultrapassar o primeiro Kant, senão por meio dele mesmo. Não se pode
ultrapassar Schopenhauer e Feuerbach (a tentativa de
"ultrapassagem" que Hans Küng ensaiou, de forma perigosamente
breve, em Por que Ainda ser Cristão Hoje?, p. 40, é muito
arriscada, e epistemologicamente insegura), senão por meio deles. Esquecê-los é uma maldição.
Recalcá-los, patológico. O
desejo humano de transcendência pode e deve constituir-se objeto de
pesquisa, e, até, motor de pesquisa – mas não deuteragonista dela.
Insights mitológicos, cosmovisões metafísicas e diálogos da alma –
de que também eu padeço! – não podem, sob nenhuma hipótese, ter a pretensão de
se constituírem como saber, e exigir assento à mesa. Uma “Teologia”
inocente e ingênua quanto a seu discurso é alienação – e como pode
constituir-se em processo de desalienação de si e de terceiros? Como
pode constituir-se em ferramenta heurística uma situação de self
deception?
E
mais: o fato de a Teologia sair do controle de Roma ou de Witemberg, e
cair no controle subjetivo de personalidades livres, em nada acrescenta a
ela que lhe permita converter-se - não por isso - em “saber” (cf. meu
Crer
e Saber - – ensaio e nudez alguma coisa entre intempestivos e extemporâneos). Uma metafísica
normativa e uma metafísica subjetiva, poética, metafórica, dê-se-lhe
o nome que convier, são o que são – metafísica. Noologia, idéia, mito, riscos de giz na lousa das
catequeses.
Finalmente,
seria muito bom ter Tillich sentado à mesa. Mas não o primeiro, lamento
dizer. Aliás, ele mesmo o diz. Já na sua maturidade de teólogo – e eu
diria, maturidade do “último teólogo ontológico”, isto é, do tipo
que chegou ao limite da tensão elástica da criatividade retórica da
metafísica engajada e ciosa de si, milímetro após o qual a magia se
rompe, e mostra-se como mito –, Tillich aceitou a crítica de seu amigo
de cátedra, que lhe classificou como “um teólogo provinciano”. Que
tenha doído é o menos importante. Que Tillich tenha olhado para dentro de
si, e concordado, isso, sim, faz sentido. Tillich sempre soube que, afinal, era um articulador de temas da fé
cristã, um pregador de estilo, um homem comprometido com uma cosmovisão
fixa, que, talvez, pudesse fazer sentido “hoje”. Seus ouvintes
dividiam-se em resistentes – herege! – e comovidos – gênio! Os dois grupos, contudo, estavam no mesmo mundo: a metafísica cristã, de
dois mil anos.
Tillich
talvez chegasse a decidir-se a abrir mão de uma Teologia metafísica. Que decisão teria sido! Transformaria sua
“Teologia” em "Fenomenologia da Religião”, caso não conseguisse
unir as duas. Viajou ao Japão. Começou um “diálogo” – agora, sim,
“isso” começava a esboçar-se como um diálogo, ouvir o outro para transformar-se. Aproximou-se
de Mircea Eliade, que lhe escreveu o prefácio de The
Future of Religions, obra “póstuma”, de 1966. “Nunca saberemos
qual teria sido o resultado do encontro de Tillich com as religiões
primitivas e orientais. Porém é muito significativo que antecipara o
papel decisivo de tais confrontações, não somente para os teólogos
cristãos, mas também para o mundo inteiro. Na realidade, já nos estamos
aproximando de uma cultura planetária, e em breve, inclusive os
historiadores, filósofos ou teólogos mais ‘localistas’ se verão
obrigados a analisar seus problemas e a apresentar suas convicções em um
diálogo aberto com colegas de outros continentes e crentes de outras
religiões” (p. 14). Ah. Como é simbólico que a obra póstuma de
Tillich, e sua (quem sabe?) provável abertura à ruptura radical do provincialismo da Teologia
– e da sua própria Teologia! – seja marcado pelo comentário fraterno
de Mircea Eliade. Um marco. Mas eu não estou tão certo, nem tenho tanto
do entusiasmo de Eliade, quanto a uma futura - agora impossível -
Teologia fenomenológica da parte de Tillich (cf. meu Por
uma Teologia Pós-metafísica - diálogo com um epílogo circunstancial).
Minha
opinião – talvez a Teologia que Tillich viesse a construir, depois de
1965, pudesse ser chamada de “Teologia como fenomenologia”, e, assim,
ter assento entre os cientistas da religião. Antes, Tillich, admitiu, ele
não fazia ciência. Tentava é juntar dois continentes, o velho – teológico
– e o novo – epistemológico. Manejava, contudo, o timão, desde o
primeiro, metafísico. Esforçou-se. Foi preciso um marinheiro adverti-lo.
Fora um bom capitão. Talvez trocasse de timão, agora. Mas Deus o levou antes.
Nunca saberemos.
Eu
me pergunto se a Teologia, mesmo essa que freqüenta nossas cátedras, tem
de si a consciência que devia. Pergunto-me se nós, teólogos, sabemos
que estamos presos numa armadilha epistemológica. Não vejo força sendo
feita para sairmos do “buraco” provinciano em que estamos – Tillich
talvez viesse a tentar (tenho dúvidas graves), mas morreu antes. Vejo-nos manipulando expressões, articulando
plataformas, engendrando fórmulas, ensaiando argumentos. E para o quê?
Para nos mantermos onde estamos, e nos sentarmos, nós e nossa fé – mito
– como “cientistas”. Ora, não é a fé – doutrina – que nos fará
cientistas, mas a conversão inadiável à epistemologia crítica, científico-humanista,
da qual a fé – a crença em materializações noológicas da esperança
– não faz, absolutamente parte.
É
necessária outra relação de argumentos para que a Teologia possa
legitimar-se na távola de Arthur. Não estou seguro, por exemplo, se há
avanço real com Antônio Gouvêa Mendonça, nos termos em que Faustino
instrumentaliza os seus argumentos. Citando-o indiretamente, afirma:
“uma reflexão que se mantém vinculada aos imprescindíveis laços da fé
e da revelação, mas que guarde sua autonomia e liberdade face a qualquer
autoridade” (p. 309). Higuet recorrera à questão da autoridade, como
se a liberdade da fé concedesse estatuto diferenciado à Teologia. Não,
não concede. A Teologia de Roma é tão mitológica quanto a Teologia de
Huss, ou de um camponês do MST. Ah, além de que ambas são estético-políticas.
A novidade do argumento de Mendonça é a expressão “imprescindíveis
laços da fé”. Carecem de explicação. Laços da fé são laços de
tradição. Tradição é discurso humano tomado politicamente. Necessária.
Mas nada além disso. Ponto de partida da cultura, mediação da e para a cultura. O ser
humano – Homo religiosus –
sim, vincula-se a materializações da fé – cosmovisões metafísico-religiosas.
Mas esse vínculo não é heurístico, não tem função heurística –
é estético, e pode ser, e é, instrumentalizado politicamente.
Heuristicamente, a fé que um cristão tenha em Deus, ou que um africano
tenha em Exu, ou um ateu tenha no Não-Ser – em absolutamente nada, de
nenhum modo, é “condição” estatutária para a vinculação da
Teologia às Ciências Humanas – pelo contrário. O teólogo até pode
entrar na sala, mas Deus, Exu e o Não-Ser devem ficar aguardando do lado
de fora da porta, quem sabe, talvez, conversando sobre o tempo ou a política.
Enquanto
expressões legítimas da experiência humana, como a arte – e, a me
ver, a experiência religiosa primária é estética – a “fé” (já,
então, política), é uma constituinte de sociedade. Mas, assim como a
dona de casa de Rubem Alves deve aprumar-se, para fazer ciência, o beato
religioso, também. Idem, para o místico. Profetas, sacerdotes, fiéis,
crentes, beatos, monges, leigos, clérigos – não fazem ciência. As
pessoas que se constituem como tal, no jogo social, podem
fazer ciência – mas não nessa
e por meio dessa condição. E o argumento da assumida e reconhecida
impossibilidade de imparcialidade, neutralidade e objetividade imprescindíveis,
metodologicamente, à epistemologia científica – dura ou mole – não
é argumento para tolerar-se a intromissão de sistemas de “fé” –
mitigados pelas personalidades “livres” dos teólogos – no processo
heurístico da ciência. Não é porque se corre o risco de, no frigir dos
ovos, trair-se pela própria cosmovisão assumida como metodologicamente suspensa que se
vai abrir a sala para quem pretenda, axiologicamente, pronunciar desde sua
“fé”. Um místico - São João da Cruz - já disse (saberia ele do
que dizia?) que, para se chegar onde não se sabe, deve-se ir por onde não
se sabe. Ora, a Teologia tanto sabe, quanto sabe por onde ir. Fazer-se
ciência, para a Teologia, significa assumir que não sabe. Nessa
Teologia, essa que não sabe, nem como ir, nessa eu creio. Dessa eu gosto.
Essa sou eu.
Despedindo-se
de Mendonça, Faustino toma, agora, Pierre
Gisel, teólogo protestante: “o que a teologia capta é também e sempre
o ponto de vista do ser humano” (p. 310). O que uma tal afirmação,
contudo, significa? Bem, a seguir, Faustino articula os argumentos de
Gisel, que desembocam no seguinte. As ciências da religião estão
interessadas na dimensão antropológica do fenômeno religioso, colocando
entre parêntesis uma possível adesão sua ao dado transcendente do
discurso teológico manejado no fenômeno. Numa palavra: as ciências da
religião levam a sério a experiência religiosa do sujeito, mas não seu
discurso metafísico. O risco, segundo Faustino afirma de Gisel, é que o
cientista não compreenda o religioso, ou o reduza a uma caricatura.
“Por sua vez, o engajamento da teologia se dá a partir da interioridade
de uma fé determinada, o que não significa, porém, que ela deva
transcender a racionalidade pública, sob o risco de se fechar numa
auto-afirmação sobrenatural” (p. 311). Se entendo, e se me faço
entender, trata-se de o teólogo brincar de mito pessoal, mas manejar
discursos públicos assépticos. Internamente, ele mantém ligações mágico-míticas
com o estado de espírito do sujeito religioso, mas o registro público de
sua inserção dá-se por meio do discurso “científico”.
Não
se trata, aí, de esquizofrenia? Insisto: como pode o cientista – se o
é, e, ainda que teólogo, se deseja sentar-se à mesa das ciências, deve
considerar-se um cientista –, esclarecido antropologicamente de sua condição de Homo religiosus, esclarecido do mito em que gravita sua “fé”,
permitir que essa “fé”, como se saber fosse, chegue a se imiscuir no
processo heurístico de compreensão do real? Não já é bastante que o próprio
sujeito religioso sob análise seja flagrado em plena alienação antropológica,
quando em sua experiência religiosa nua, própria da condição epistemológica
pré-medieval, ainda que no século XXI? Deve o próprio teólogo
manter-se pré-medieval, sob risco de não “compreender” a religião,
ou caricaturá-la? Gostaria de ouvir como é possível que a alienação
auto-imposta, metodologicamente assumida, possa esclarecer elementos da
experiência religiosa, na plataforma epistemológica das Ciências Humanas.
O
teólogo Pierre Gisel de Faustino vê Deus. Ainda se fala, aí, de “irrupção de
Deus na história” (p. 311) – e isso como proposição filosófica de fé teológica!
Ainda não se chegou a crer em Kant, em Schopenhauer, em Feuerbach, em
Nietzsche, em Freud, em Marx, em Edgar Morin – e quer-se fazer ciência?
Assim? Não, os senhores citados não acabam com a religião e a fé –
eles dão-lhe nome, e era para nós, teólogos, aceitamos a evidência. Iuris
esperniandi constitui um direito – não, um argumento.
Finalmente,
Faustino Teixeira apresenta sua própria posição, na defesa da presença
da Teologia entre as Ciência(s) da Religião – ele mesmo um Teólogo de
formação, assim como vou me constituindo, oficialmente, “teólogo”
de formação, ambos em doutorados em Teologia – ainda que o meu, em
Bíblia Hebraica:
Não existe teólogo,
nem cientista das religiões, nem autoridade religiosa ou política que se
situe acima de todas as religiões e seja capaz de julgá-las
‘objetivamente’. Quem pensa estar de forma ‘neutra’ acima de todas
as tradições, não descobrirá nada em nenhuma delas. E quem (...)
olhando da própria janela para a totalidade, se nega a dialogar com os
outros, que também olham por suas janelas, e acha que pode dominar e
julgar tudo, certamente perdeu o chão firme sob seus pés: como Ícaro,
suas asas de cera derreterão ao sol da verdade (p. 313).
O
tom soa bastante pessoal e polêmico. Quase como se constituísse uma
defesa do direito de estar lá, teólogo, entre os cientistas. Eu insisto:
não se trata de negar o discurso ao “teólogo” – eu mesmo sou um, e
quer-me parecer que eu tente, aqui, fazer "ciência da
religião" (e, para mim, ela começa com epistemologia).
Trata-se de dizer a nós, teólogos, que o que interessa à ciência não
é nossa crença pessoal. O que pensamos de Deus, dos anjos, do mal, da
verdade, do pecado, nada disso interessa. Não somos, nós teólogos,
objetos da pesquisa. Interessa à ciência perguntar a nós, teólogos, se
temos algo a contribuir, epistemologicamente, metodologicamente, com o acesso
“científico” ao real – e, convenhamos, a fé não constitui
qualquer tipo de acesso científico ao real, ainda que o estudo do sistema
de crenças de
uma cultura, heuristicamente dirigido, possa traduzir-se em enorme
contribuição para a compreensão do ser do homem no mundo.
Assim,
não é o caso de retóricas afetadas quanto à condição de mônada de
cada ser humano. Não se trata dessa questão. Brancos e negros podem
sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Ideólogos de direita e de
esquerda podem sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Teístas e ateus
podem sentar juntos, e fazer ciência, juntos. Não como brancos e negros,
de direita ou de esquerda, religiosos ou ateus – mas como cientistas.
Sim, suas particularidades culturais, políticas, sociais, hão de
produzir ruído - que bom! - na pesquisa, a qual, desde o início, sabe disso e espera por
isso. Mas eles não estão ali por
causa dos ruídos. Logo, não é porque são teólogos que podem –
podemos, os teólogos – sentarmo-nos à mesa: mas, justamente, a
despeito disso.
Assumamos:
a Teologia é uma invenção pré-moderna. A “ciência”, não
exatamente, já que com "ciência" quer-se indicar para um
recorte epistemológico heurístico preciso e específico da modernidade. Ou a
Teologia faz-se "ciência" - e "ciência moderna" -, ou não pode, não, sentar-se à mesa. E fé não
é ciência. De nenhum tipo. Nenhum tipo de fé. Nenhum tipo de ciência.
E tanto que, se súbito, a "ciência" mostra-se como fé, mostra
que vestia mortalhas, e errava, louca. Parece ser o caso de uma
"ciência" que tem horror filosófico ao Tempo, porque tem
pruridos criptoteológicos alguma coisa entre inconscientes e
inconfessáveis.
Veja
que, na terceira parte do artigo, Faustino trata da teologia das religiões
como algo que se dá “no plano de Deus” – aqui ele cita Geffré (p.
314). Não considero heurística essa afirmação – ela é política,
porque a mesa terá de aceitar a fórmula “plano de Deus” como um dado, e tal expressão não passa de
mito (em sentido bastante frio, inclusive), assumido pela fé, e
racionalizado na "Teologia". Mais à frente, encaminha-se para assumir a
teologia das religiões como a análise “sobre o significado e o valor
das tradições religiosas mundiais à luz da revelação cristã” –
aqui Faustino cita Jacques Dupuis. A rigor – eu quero insistir nesse
ponto – trata-se de uma escola de etiqueta teológica, cujo resultado é
a abertura de visão – sempre fechada – dos teólogos, que contudo, é
difícil de se lograr. No plano da cultura, o Estado Democrático de
Direito já obriga a Teologia a comportar-se bem à mesa dos comensais.
Todo esse esforço da “teologia das religiões” reduz-se a uma
tentativa de alcançar o mesmo objetivo, imposto de fora, como que de
dentro, e por meio de uma epistemologia doméstica – “à luz da
revelação cristã”. Para que serve uma teologia das religiões, à luz
da teologia cristã? Para convencer teólogos. A quê? A que considerem um
certo valor, mais ou menos, das religiões que não aquela sua? Tarefa
atrasada, porque, quer-me parecer que a Revolução Francesa forçou-nos
a tanto, e um certo liberalismo filosófico inglês chegou até a criar
protestantismos “democráticos” – devagar, nem tanto, que, na prática,
teocracias sacerdotais democráticas findam por constituir sistemas
dissimulados de hierocracia: ainda que contra os documentos constitutivos
das instituições.
Enquanto
a Teologia for plataforma de argumento para a própria Teologia, enquanto os argumentos da Teologia forem argumentos teológicos –
epistemologia teológica, ética teológica, método teológico – a
Teologia estará imprestável para o diálogo com a Ciência. Bastará que
soem, à mesa, essas quatro expressões constrangedoras:
"inteligência da fé" (p. 301), "reflexão 'à luz da
fé'" (p. 301), "irrupção de Deus na história e (...) sinais
históricos dessa presença" (p. 311) "no plano de Deus"
(p. 314) e "à luz da revelação cristã" (p. 314) para que
seja o caso de um espetáculo de menear incontido de cabeças, a que eu -
um teólogo - de bom grado me furtaria. A meu ver, o
MEC – todos os seus órgãos – bem fizeram em forçar a reunião. A
Teologia está aí - cristãos e umbandistas entre os cientistas. Mas, cá entre nós, que balbúrdia! A Teologia devia
abrir-se aos sistemas amigos – todos –, como pressupõe o Teorema de
Gödel (aqui referido por meio de Edgar Morin, um apud que eu
espero corrigir um dia),
porque ela, sozinha, jamais poderá asseverar sua verdade, sua fé, seus
mitos, para além de seu apego neurótico a eles. A Teologia deve
rasgar-se desde dentro, e converter-se ao Humano, sem tergiversações,
sem escamoteações, sem subterfúgios. Barth nos custou cem anos. Mais
cem será uma desgraça.
(...)
Não
era possível dizer tudo isso ao Kenner, em cinco minutos. Talvez ele me
chegue a ler, e, então, terá minha resposta, e ela aqui vai com toda
paixão e risco. E consciência de sua possibilidade de erro. Que contudo,
deve ser assinalado epistemologicamente, não por meio de afirmações de
fé. A um teólogo que me afirme que algo que eu diga ou pense não tem
consistência "à luz da fé", ou "no plano de Deus", eu perguntaria se o colega tem consciência do
fundamento de sua própria crença, e de onde ele teria tirado a idéia de que
eu esteja interessado nela. Agora, se a questão for teórico-metodológica,
se o problema mostrar-se epistemológico, se o eventual equívoco de minha
posição for científico-humanisticamente determinado, agradeço, e
começo o caminho, tudo outra vez. E talvez - quem sabe? - Deus vá
comigo.
Imagine-se
uma mesa de “ciências da religião”, animada à luz da fé, e
divisando as questões “no plano de Deus”. Se eu, como sujeito livre,
religioso, sim, místico, excessivamente, eu diria, teólogo, por vício
da boca e tortura da mente, a mim não se me dá o que a fé pessoal de João
tem a me dizer – imagine-se a essa mesa de supostos cientistas o que teria
a dizer a crença de um teólogo cioso de sua fé e tradição. O quê?
Abaixariam todos os olhos, contritos, e orariam? O quê? Corrigiriam as
hipóteses, em convergência à fé exposta e nua sobre a mesa? O quê?
Sorririam, constrangidos, dariam uns dez segundos, e continuariam de onde
pararam?
Uma
Teologia Brasileira não há. Nem jamais haverá. Quando a Teologia é,
por exemplo, “romana”, mesmo quando em solo brasileiro, ainda assim
é teologia
medieval – de Nicéia. Não me consta que Nicéia seja uma vila
brasileira. Se a Teologia transformar-se, como se quer aqui e ali, em metáfora,
em palavras retóricas, com as quais se organizam comunidades não mais sob o
poder do dogma, mas sob o poder do carisma – Gadamer, não é conveniente
esquecer, está interessado na relação entre tradição e ser-no-mundo.
Chega quase a ser reacionária, a sua metodologia. E uma metaforização
da Teologia não me parece estar a serviço da libertação radical, mas
da instrumentalização, por outros poderes, das velhas “verdades” –,
do poder profético, a que, an passant, referiu-se
Faustino, nem aí levanta-se uma Teologia Brasileira. Quando uma Teologia como metáfora me fala da articulação
local – supostamente gertziana, a posição – dos fundamentos universais da fé, pergunto-me o que isso significa, em termos
políticos. Porque essa só pode ser uma estratégia política.
Finalmente,
se a Teologia tornar-se fenomenologia – e, em termos cristãos, exegese,
não haverá jamais uma Teologia Brasileira, conquanto
brasileiros possam vir a fazer boa exegese e Teologia Histórico-crítica.
E, eventualmente, criar mitos utópicos, obviamente.
Não
sentimos, nós teólogos, a dor das Ciências Humanas até o fundo. Não
acreditamos em – porque não entendemos – o que significa, para
nós, principalmente para nós, a declaração nietzscheana da morte de
Deus. Deus tornou-se, na Teologia, depois de Nietzsche, um joão-bobo.
Cada vez que ele é socado, e cai, torna a levantar-se, paródia. E não
nos damos conta disso, porque, afinal, ainda pensamos "à luz da fé", e no
horizonte de um deus nosso, feito à nossa imagem e semelhança.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
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