|
A sintaxe de Gn
1,1-3
- diálogo com
Alviero Niccacci
Osvaldo
Luiz Ribeiro
09/08/2008
Durante
a defesa de minha hipótese de trabalho, por ocasião da banca de exame de
minha tese de doutorado em teologia bíblica, na PUC-Rio, dia seis
passado, Niccacci foi fartamente citado. O caráter das referências a Sintaxis
del Hebreo Bíblico levaram-me a uma idéia absolutamente errada das
afirmações do próprio Niccacci. Ouvindo-as, na forma como foram
apresentadas, pareceu-me estar diante de argumentos que contestavam minha
posição defendida no texto da tese. Lendo-as, agora, chego a conclusão
diametralmente oposta – Niccacci, tivesse eu encontrado-o antes,
ratificaria, como, agora, ratifica, (quase absolutamente) tudo quanto
disse a respeito da sintaxe de Gn 1,1-3. Não o tendo encontrado antes,
ele, agora, funciona como ratificação de meus postulados.
Recebi,
durante a banca, cópia do texto de Niccacci. Uma breve pesquisa, agora,
leva-me a encontrá-lo. Trata-se de Alviero NICCACCI, Sintaxis
del Hebreo Bíblico. Tradução de “Sintassi del verbo ebraico nella
prosa biblica classica” por Guadalupe Seijas de los Rios Zarzosa.
Madrid, Verbo Divino, 2002.
Transcrevo
a íntegra do parágrafo 18 (p. 41-42), e, a seguir, procedo à análise
das afirmações de Niccacci e à comparação com minha própria posição
defendida na tese.
Parágrafo 18 de Sintaxis
del Hebreo Bíblico, de Alviero Niccacci
(1) La conclusión a la que hemos llegado respecto a la
forma de grado cero, Wayyiqtol, y a la forma inicial ‘retrospectiva’, waw
– x – Qatal, es importante para comprender la sintaxis de Gen 1,1-3,
un texto sobre el cual se ha escrito mucho sin llegar a una solución comúnmente
aceptada.
(2) Gen 1,1-3
|
a
|
#r<a'(h' taeîw> ~yIm:ßV'h;
taeî ~yhi_l{a/ ar"äB' tyviÞarEB.
|
(1)
|
|
b
|
Whboêw" ‘Whto’ ht'îy>h'
#r<a'ªh'w>
|
(2)
|
|
c
|
~Ah+t. ynEåP.-l[; %v,xoßw>
|
|
|
d
|
~yIM")h; ynEïP.-l[; tp,x,Þr:m.
~yhiêl{a/ x:Wråw>
|
|
|
|
… ~yhiÞl{a/
rm,aYOðw:
|
(3)
|
(3) Desde el punto de vista gramatical, las cuatro
oraciones de los vv. 1-2 se analizan del siguiente modo: (a) x – Qatal,
(b) waw – x – Qatal, (c) waw – Oración Nominal Simple (sustantivo +
sintagma preposicional), (d) waw – Oración Nominal Simple (sustantivo +
participio). Por consiguiente, según lo que se ha dicho con anterioridad
(§§ 16-17), los vv. 1-2 son el antecedente y el v. 3 es el comienzo de
la narración propiamente dicha.
(4) Más complicado es definir la relación del v. 1 con
el v. 2. De hecho la oración ~yhi_l{a/ ar"äB' tyviÞarEB. Se
analiza como un estado constructo en el cual el ‘nomen rectum’ es un
verbo finito: ‘Al comienzo de Dios-creó…’, es decir, ‘Cuando Dios
comenzó a crear…’. Considero además que los vv. 1-2 constituyen una
oración independiente, como los otros casos en los que una narración se
introduce con oraciones de ‘antecedente’ (cf. § 19). Por tanto, el v.
1 (oración temporal) funciona como ‘prótasis’, mientras que el v. 2
es la ‘apódosis’ (‘prótasis’ y ‘apódosis’ se emplean en
sentido amplio, cf. § 96). La traducción, en consecuencia, sería:
|
a
|
(1) Cuando Dios comenzó a crear el cielo y la tierra,
|
|
b
|
(2) la tierra estaba yerma y desierta,
|
|
c
|
había tiniebla sobre el abismo
|
|
d
|
y el espíritu de Dios aleteaba sobre las aguas.
|
|
|
(3) Entonces Dios dijo…
|
(5) Así, en los vv. 1-2 tenemos formas de antecedente,
todas ellas oraciones nominales (complejas las dos primeras, simples las
otras dos). Las oraciones (a) y (b) funcionan sintácticamente como prótasis
(x – Qatal) y apódosis (waw – x – Qatal), es decir, están
vinculadas entre sí según el modelo de la ‘oración bimembre’ (§
105). Las oraciones (c) y (d) están coordinadas con (b) y comunican dos
informaciones simultáneas. Las cuatro oraciones finitas constituyen el
antecedente de la narración propiamente dicha, que empieza con Wayyiqtol.
Minha
análise do parágrafo citado de Niccacci
Passo,
agora, a analisar cada um dos parágrafos do Parágrafo 18 de Sintaxis
del Hebreo Bíblico, de Niccacci.
Niccacci
afirma que, com Gn 1,1-3, está-se diante de uma narrativa com início retrospectivo
(§ 1). Isso quer dizer que, em termos sincrônicos, porque a
narrativa inicia-se com cláusula retrospectiva, o início dessa
narrativa, as suas primeiras orações, nesse caso, não correspondem ao
“presente narrativo”, ao que, de fato, se quer dizer nessa narrativa,
mas constituem, antes, informações consideradas necessárias para, desde
aí, desde elas, passar-se às informações propriamente colimadas.
Niccacci
voltará a falar da condição retrospectiva dos v. 1-2 no § 3: “los
vv. 1-2 son el antecedente y el v. 3 es el comienzo de la narración
propiamente dicha”. Aí, Niccacci já adianta a informação
de que a narrativa começa,
mesmo, no v. 3, ou, dito de outro modo, é o que está no v. 3 que se
quer, de fato, dizer: “las cuatro oraciones finitas constituyen el
antecedente de la narración propiamente dicha, que empieza con Wayyiqtol”
(§ 5), isto é, “la narración propiamente dicha, que empieza con
Wayyiqtol”, constitui-se pelo v. 3, do que os v. 1-2 são
“antecedentes retrospectivos”.
Com
isso minha tese não apenas concorda – quanto o disse explicitamente,
ainda que em outros termos:
Gn 1,1 refere-se à “criação” desde o
“presente” narrativo, quando, então, a “criação” vai
começar, mas, antes, quer-se dizer alguma coisa sobre como estava a
terra nesse momento inicial (v. 2), quando ´élöhîm vai começar a sua criação, que efetivamente começa no v. 3.
De
fato, podia-se saltar do v. 1 para o v. 3, e desprezar-se todo o conteúdo
do v. 2: “quando ´élöhîm começou a criar os céus e a terra, então ´élöhîm disse:
‘seja a luz’, e a luz foi”. Ainda assim, o v. 1 continuaria
constituindo cláusula dependente – não mais do (antigo) v. 2, mas,
agora, do (antigo) v. 3. A declaração de Niccacci, tanto quanto a de
minha tese, de que seja a narrativa propriamente dita, seja a “criação”,
seja uma, seja a outra, começam, efetivamente, no v. 3, implica,
necessariamente, incontornavelmente, na condição subordinada, dependente,
do v. 1 – seja, nos termos do TM, do v. 2, seja, na hipótese de supressão
de todo o v. 2, então do v. 3.
Ora
– até isso Niccacci o disse. Claramente. No § 4. Somem-se as afirmações:
a) a fórmula inicial do v. 1 encontra-se em construto; b) os v. 1-2 (atenção:
os v. 1-2, e não, o v. 1, sozinho!), os v. 1-2 “constituyen una oración
independiente”; c) o v. 1 constitui uma “oración temporal”; d), ou
seja, uma “prótasis”, e) cuja “apódosis” é o v. 2. Traduzindo.
O v. 1 é dependente do v. 2 – prótasis + apódosis. No conjunto, os v.
1-2 constituem uma declaração só, que funciona como antecedente do v.
3.
Não
foi outra coisa que eu afirmei em minha tese (cf. a seção 3.5 da Tese).
Não apenas o v.1 não é uma oração independente, mas nem mesmo os v.
1-2 constituem o núcleo proposicional dos v 1-3. O v. 1 depende
sintaticamente do v. 2, e o v. 3 constitui, de fato, o que se quer dizer
em Gn 1,1-3. Mas, como o que se diz ter acontecido no v. 3, diz-se que
aconteceu quando as coisas
estava conforme descritas no v. 2, o v. 1 tem a função de situar o v. 3
como se dando a partir do v. 2. Ou seja, quando ´élöhîm vai começar a criar, mas ainda não criou, lá está a terra – ela está,
aí, agora, nesse momento, quando ´élöhîm vai
começar a criar, mas, ainda não criou, uma desolação e um deserto (v.
2). Quando ´élöhîm vai dizer “haja luz”, a terra está uma desolação e um deserto. Em
outros termos, quando ´élöhîm vai começar (v. 1) o que ele faz no v. 3, a terra está
uma desolação e um deserto (v. 2).
Niccacci
afirma que o v. 1 constitui prótasis. Prótasis designa o termo dependente em uma cláusula subordinativa, da qual o apódosis é a
base principal (cf. Wikipedia).
O próprio Niccacci afirma que o v. 1 constitui uma oração temporal.
Logo, Niccacci afirma que o v. 1 é dependente do v. 2. Um provável equívoco
do texto de Niccacci é a sua seguinte declaração: “Considero además
que los vv. 1-2 constituyen una oración independiente” (§ 4). Os v.
1-2 não constituem uma oração,
mas duas. E o próprio Niccacci o diz: “Así, en los vv. 1-2 tenemos formas de antecedente, todas
ellas oraciones nominales (complejas las dos primeras, simples las otras
dos). Las oraciones (a) y (b) funcionan sintácticamente como prótasis (x
– Qatal) y apódosis (waw – x – Qatal), es decir, están vinculadas
entre sí según el modelo de la ‘oración bimembre’” (§ 5). Segundo
Niccacci, há duas orações nos v. 1 e 2, que ele classifica de (a) e (b)
– nesse caso, (a) = v. 1 é dependente de (b) = v. 2a. A confusão dá-se
em ter Niccacci usado o termo “oración” (minúscula) em sentido não-técnico,
e “Oración” (maiúscula), em sentido técnico. Quando no § 4,
Niccacci disse que os v. 1-2 constituem “una oración independiente”,
ele, aí, está dizendo a mesma coisa que quando, no § 5, usa a expressão
“‘oración
bimembre’” – sempre em minúsculas. O reegime aí é discursivo, não sintático.
Ou seja, o conjunto do que é dito nos v. 1-2 – uma
oración independiente (isto é, independente do v. 3) atualiza-se,
sintaticamente, na forma de duas orações, a primeira, v. 1, oração
subordinada adverbial temporal (que Niccacci chama, apenas, de temporal),
e a segundo, v. 2a, oração principal. Isso eu o disse explicitamente em
minha tese, e, penso, de forma bastante detalhada (cf. seção 3.5.1):
a) Bürë´šît Bürö´ ´élöhîm ´ët haššämayim
wü´ët hä´ärec:
oração subordinada
adverbial temporal reduzida de infinitivo;
b) wühä´ärec häytâ töhû wäböhû:
oração principal
em relação à oração anterior (a) e oração coordenada
assindética em relação à seguinte (c);
c) wüHöšek `al-Pünê tühôm:
oração coordenada
sindética explicativa;
d) würûªH ´élöhîm müraHepet `al-Pünê hammäyim:
oração coordenada
sindética aditiva;
e) wayyö´mer ´élöhîm:
oração principal
em relação à oração seguinte (f) e oração
coordenada assindética em relação à anterior (d);
f) yühî ´ôr:
oração subordinada
substantiva objetiva direta;
g) wayühî-´ôr:
oração coordenada
sindética aditiva.
Conforme informei em minha tese, Rashi considerava que a verdadeira apódosis
do v. 1 era o v. 3, e não, como o quer Niccacci – e eu – o v. 2. Para
Rashi, o v. 2 deveria ser considerado cláusula parentética. Bem, em
termos retórico-discursivos, Rashi tem razão. Se o que se quer dizer em
Gn 1,1-3, segundo (acertadamente) Niccacci, encontra-se no v. 3, segue-se
necessário dizer que o cláusula temporal do v. 1 pode, perfeitamente,
servir-lhe de prótasis. Em termos retórico-discursivos, o v. 1 abre a
narrativa, circunstanciando-a temporalmente, o v. 2 descreve
prepositivamente (“então” = nesse momento a que se refere o “quando” do v. 1) a situação
histórico-geográfica por trás do “quando” (v. 1) e da promulgação
da ordem criativa de ´élöhîm (v. 3), ao passo que o v. 3 descreve o momento, simultâneo
ao “quando” do v. 1, ´élöhîm efetivamente
começa a “criação”.
Mas isso em temos retóricos. Em termos sintáticos, contudo, o v. 2
constitui uma oração principal (apódosis, diz, acertadamente,
Niccacci), cuja oração subordinada adverbial temporal (“temporal” e
“prótasis”, diz, acertadamente, Niccacci) é o v. 1. O parêntesis
retórico constitui, contudo, sob regime sintático, oração principal.
Tanto que a melhor forma de desenvolver todo o período ainda me parece
aquele que apresentei em minha Tese:
a terra estava uma desolação e um deserto, quando ´élöhîm começou a criar os céus e a terra, pois havia treva e soprava um vento
tempestuoso sobre as faces do abismo e das águas. Então ´élöhîm disse: ‘seja a luz’, e a luz foi (cf. seção 3.5.5).
Ou seja, a terra estava uma desolação e um deserto, sim, antes
de ´élöhîm promulgar
a ordem régia da “criação”, vale dizer, (re)construção do templo,
e, ainda aí, nesse momento, “quando” vai começar a “criar”,
iniciando a série de “ordenamentos”. Mas somente até o momento em
que tais ordens e ordenamentos começam a ser promulgados, declarados,
feitos. Porque basta que comece a ser a luz, e que a luz seja, para que a
desolação e o deserto em que a terra está dê lugar a “os céus e a
terra”.
A
Tradução de Niccacci
A rigor, há uma diferença entre o modo como Niccacci e eu chegamos às
mesmas conclusões quanto à sintaxe de Gn 1,1-3. Niccacci trata, e
traduz, o v. 1 como oração temporal, mas sem
vocalizar Bürö´. Niccacci vai, de fato, contudo, traduzir Bärä´ como “criar”, e não “criou”, como seria de se esperar: “cuando
Dios comenzó a crear el cielo y la tierra”. Niccacci obtém o mesmo
efeito que eu, apesar de não vocalizar Br´ como Bürö´, recorrendo, dentre outros, a Gesenius-Kautzch, § 130 d,
que trata, dentre outros casos, do construto elaborado por meio de verbos
finitos – exatamente o que se daria, segundo Niccacci, no TM, segundo a
vocalização Bärä´: “De
hecho la oración ~yhi_l{a/ ar"äB' tyviÞarEB.
se analiza como un estado constructo en el cual el ‘nomen rectum’ es un
verbo finito: ‘Al comienzo de Dios-creó…’, es decir, ‘Cuando Dios
comenzó a crear…’.” (§ 4). Isso posto, significa que o caminho que
Niccacci emprega para obter os mesmos efeitos subordinativo-temporais que
vejo no v. 1 é, comparativamente, mais difícil que o caminho que eu
mesmo segui. Porque, ao passo que a vocalização Bürö´ torna indiscutível a condição subordinativa do v 1 em
relação ao 2, a vocalização Bärä´
até a permite – tanto que Niccacci chega lá! – mas não sem, antes,
legitimar a série de postulados da pesquisa que defendem (a meu ver,
equivocadamente) a condição absolutamente independente do v. 1.
O que deduzo daí? Ou seja, o que deduzo do fato de que, mesmo mantendo a
vocalização Bärä´, Niccacci afaste-se da corrente majoritária, que vê,
justamente em Bärä´, a “prova” – há “prova” em ciências humanas?
– de que o v. 1, como o quer, por exemplo, Westermann, é independente:
“no princípio criou Deus os céus e a terra – ponto.”? Niccacci, já
disse, já se viu, traduz, ao contrário (acertadamente): “cuando Dios
comenzó a crear el cielo y la tierra”. Ora, deduzo, simplesmente, que o
peso da necessária dependência retórico-discursiva e mítico-traditiva
de Gn 1,1 é tão forte, que Niccacci, mesmo optando por não alterar a
vocalização do TM, é forçado a perceber que, mesmo assim, deve-se
considerar, essa fórmula, construto, e, o verso que ela constitui,
temporal, prótasis, dependente. E é o que faz. Acertadamente.
Por que, então, vocalizar Bürö´ (minha
Tese) e não Bärä´ (Niccacci [e TM]), se, no final das contas, chega-se à mesma conclusão –
o v. 1 é temporal e protático em relação ao v. 2? Haroldo Reimer,
examinador da banca, deixou-me essa questão – não incluídas, aí, as
informações de Niccacci, que as podíamos ter tido mesmo lá, e
encerrado a questão, caso tivessem sido apresentadas, a rigor, como o próprio
Niccacci as redigira (a crer na tradução que lá e aqui se acessa).
Bem, por quatro razões, basicamente. Primeira, trata-se de uma sugestão de
Rashi, que, mesmo estando tão perto do período de vocalização do TM,
podia reconhecer que a forma “perfeito” de Br´ não
condizia com a estrutura de Gn 1,1-3. Segunda, o fato de que a
“narrativa ‘javista’ (?) da criação” inicia-se com paralelo sintático
perfeito em relação a Gn 1,1-3, e, lá, o verbo encontra-se no
infinitivo: “no dia de fazer ´élöhîm terra e céus” (~yIm")v'w> #r<a,î
~yhiÞl{a/ hw"ïhy> tAf±[] ~Ay©B.). Terceira, em Gn 5,1, necessariamente posterior a Gn
1,1, quer-me parecer, a forma é infinitivo – e, agora, do mesmo verbo
de Gn 1,1: “no dia do criar de ´élöhîm ´ädäm” (~d"êa'
‘~yhil{a/ aroÜB. ~Ay©B.). Quarto, quando propus a Bouzon†, primeiro
orientador da Tese, a vocalização de Rashi, ele me disse que não via
problemas, porque, afinal, com isso, não se mexia no “texto”, uma vez
que a vocalização não faz parte dele. Ora, mas se a vocalização é
que dá a alma a ele – sem ela, ele não “fala” –, e se, no frigir
dos ovos, a tradução de Niccacci termina por converter o verbo em um
infinitivo – criar, a rigor, Bürö´ – a pergunta é: por que não?
Conclusão
Durante
a fase de pesquisa, não tive acesso aos argumentos e ao texto de
Niccacci. Durante a defesa de minha Tese, Sintaxis
del Hebreo Bíblico foi longamente citado como constituindo entrave à
minha hipótese de trabalho. Não obstante, minha Tese foi aprovada.
Para
melhor estabelecimento dos fatos, contudo, convém esclarecer que, em
nenhum momento, Niccacci representa uma proposta de retificação de minha
Tese. Pelo contrário. Ele a ratifica. Em cada passo, em cada sentença,
em cada afirmação, em cada parágrafo, Niccacci como que diz: “bravo!,
Osvaldo!, bravíssimo”. Mesmo quando há uma leve discordância entre
Niccacci e eu – ele não vocaliza Bürö´ e eu, sim –, Sintaxis del Hebreo Bíblico
ratifica minha posição, porque, ainda assim, e, a despeito da vocalização
que o próprio Niccacci mantém, sua tradução converte a raiz em
infinitivo – “criar”, e não “criou”. Até aí, Niccacci e eu,
chegamos à mesma conclusão. Na prática, enxergamos a mesmíssima
sintaxe.
Qual
seja: Gn 1,1-3 constitui o encadeamento de dois momentos sintáticos: a)
os v. 1-2, e o v. 3. Os v. 1-2 constituem, em relação ao v. 3, uma cláusula
de antecedência. É no v. 3 que tudo efetivamente começa – que a criação
começa (eu), que a narrativa começa (Niccacci). Quanto aos v 1-2, o v. 2
é a oração principal (apódosis – Niccacci), ao passo que o v. 1
constitui oração temporal e prótasis (Niccacci), ou, nos meus termos
(Gramática da Língua Portuguesa), oração subordinada adverbial
temporal, reduzida de infinitivo, portando-se de forma sintaticamente
dependente do v. 2.
© Osvaldo Luiz Ribeiro
–
autorizado uso pessoal, desde que com citação da fonte e sem alterações
no texto –
|