Sl 80,2-20

 

Súplica do rei na calamidade nacional

 

lae’r"f.yI h[eÛro«

2a Pastor de Israel,

@sE+Ay !aCoåK; gheänO hn"yzI©a]h;

2b ouve (tu), aquele que guia, como um rebanho, José,

`h['ypi(Ah ~ybiäWrK.h; bveÞyO

2c aquele que monta os querubins, resplandece (tu).

^t<+r"Wb)G>-ta, hr"îr>A[ hV,ªn:m.W !mIÜy"¬n>biW ~yIr:’p.a, ynEÜp.li

3a Adiante de Efraim e de Benjamin e de Manasses desperta a tua força,

`WnL'( ht'['ävuyli hk'Þl.W

3b e caminha para a salvação de nós.

 

~yhiîl{a/

4a ´élöhîm,

Wnbe_yvih]

4b restaura-nos,

^yn<©P'÷ raEïh'w>

4c e faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

4d e salvos seremos.

 

tAa+b'c. ~yhiäl{a/ hw"åhy>

5a Yahweh ´élöhîm cübä´ôt,

`^M<)[; tL;îpit.Bi T'n>v;ª['÷ yt;îm'-d[;

5b até quando estarás irado contra as orações do teu povo?

h['_m.DI ~x,l,ä ~T'l.k;a/h,â

6a (Tu) os fazes comer pão de lágrima,

`vyli(v' tA[ïm'd>Bi Amqeªv.T;w:÷

6b e os fazes beber de lágrimas desmedidas.

WnynE+kev.li !Adm'â WnmeäyfiT. 

7a (Tu) nos tornaste disputa para nossos vizinhos,

`Aml'(-Wg[]l.yI Wnybeªy>aow>÷

7b e nossos inimigos caçoam de nós.

 

tAaåb'c. ~yhiäl{a/

8a ´élöhîm cübä´ôt,

Wnbe_yvih]

8b restaura-nos,

^yn<©P'÷ raEïh'w>

8c e faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

8d e salvos seremos.

 

[:ySi_T; ~yIr:åc.Mimi !p,G<â

9a Uma vinha do Egito (tu) arrancaste,

~yI©AG÷ vrEîg"T.

9b expulsaste populações,

`h'[,(J'Tiw:

9c e a plantaste.

h'yn<+p'l. t'yNIïPi

10a Limpaste o terreno para ela,

h'yv,ªr"v'÷ vrEîv.T;w:

10b e enraizaste a raiz dela.

`#r<a'(-aLem;T.w:

10c Então encheu (ela) a terra.

HL'_ci ~yrIåh' WSåK'

11a Cobriram-se as montanhas com a sombra dela,

`lae(-yzEr>a:) h'yp,ªn"[]w:÷

11b e os pâmpanos dela eram carvalhos altíssimos.

~y"+-d[; h'r<äyciq. xL;äv;T.

12a (Ela) estendeu as ramagens dela até o Mar, 

`h'yt,(Aqn>Ay* rh'ªn"÷-la,w>

12b e até o Rio, as vergônteas dela.

h'yr<_dEg> T'c.r:äP' hM'l'

13a Por que (tu) quebraste as cercas dela,

`%r<d"( yrEb.[oï-lK' h'Wrªa'w>÷

13b e a vindimam todos os passantes do caminho,

r[;Y"+mi ryzIåx] hN")m<ås.r>k;y>

14a devora-a o javali da floresta,

`hN"[<)r>yI yd:äf' zyzIßw>

14b e bicho de campo a pasteja?

 

étAab'c. ~yhiäl{a/ 

15a ´élöhîm cübä´ôt,

an"ï-bWvñ)

15b volta-te, por favor,

~yIm:åV'mi jBeäh;

15c olha desde os céus,

hae_r>W

15d e vê,

`tazO* !p,G<å dqoªp.W÷

15e e visita esta vinha,

^n<+ymiy> h['äj.n"-rv,a] hN"k;w>â

16a e a cepa que plantou a destra tua,

`%L") hT'c.M;îai !Be©÷-l[;w>

16b e o filho que firmaste (tu) para ti.

vaeäb' hp'ärUf.

17a (Ela) foi queimada pelo fogo,

hx'_WsK.

17b (ela) foi cortada.

`Wdbe(ayO ^yn<åP' tr:Þ[]G:mi

17c Que pela repreensão das tuas faces possam eles perecer!

^n<+ymiy> vyaiä-l[; ^d>y"â-yhiT.(

18a Esteja a tua mão sobre o homem da tua destra,

`%L") T'c.M;îai ~d"ªa'÷-!B,-l[;

18b sobre o filho de homem que confirmaste para ti,

&'M<+mi gAsïn"-al{w>

19a e não nos apartaremos de ti.

WnYE©x;T.÷

19b Preserva-nos vivos,

`ar"(q.nI ^ïm.vib.W

19c e o nome teu invocaremos.

 

tAaåb'c. ~yhiäl{a/ hw"Üh«y>

20a Yahweh ´élöhîm cübä´ôt, 

Wnbe_yvih]

20b restaura-nos.

^yn<©P'÷ raEïh'

20c Faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

20d e salvos seremos.

 

Comentário

 

O que me trouxe a esse salmo foi a presença da palavra hebraica ´ädäm (cf. v. 18b). Eu estou investigando o uso que a Bíblia Hebraica testemunha dessa palavra no sentido de “rei”. O que pretendo, em última análise, é, em minha Tese de Doutorado (PUC-Rio), trabalhar com a afirmação de que a palavra ´ädäm, em Gn 1,26, no contexto da “narrativa sacerdotal da criação” (Gn 1,1-2,4a), refira-se exatamente ao rei de Jerusalém.

 

No que diz respeito ao Sl 80, há elementos suficientes para considerar que as expressões ´îš yümînekä (o homem da tua destra) e Ben-´ädäm ´immacTä lläk (o filho de homem que confirmaste para ti) sejam referências poético-ideológicas à figura do rei. Não é possível, contudo, precisar quem seja, nem mesmo se ele reina em Israel (Reino do Norte), em Judá (Reino do Sul), ou em algum outro contexto possível. Todas essas alternativas são viáveis.

 

O salmo está estruturado através de um estribilho que, contudo, sofre ligeira, mas significativa, alteração, à medida que avança salmo adentro. A primeira vez que o estribilho aparece, a “divindade” é invocada pelo recurso a um simples ´élöhîm (v. 4a). Na segunda vez que o estribilho aparece, o vocativo é ampliado para ´élöhîm cübä´ôt (v. 8a). Na terceira vez, é ampliado até a fórmula vocativa Yahweh ´élöhîm cübä´ôt (v. 20a). Talvez esse processo incremento dos termos empregados no vocativo aponte para um respectivo aumento tanto do sentimento de tragédia do “salmista”, quanto da sua confiança de que a divindade pode, afinal, intervir.

 

Observa-se, ainda, uma pausa intencional na leitura pública pressuposta, porque no v. 20c falta o vav, isto é, a conjunção “e”, presente em 4c e 8c. O ritmo de leitura dos estribilhos I e II não sofre a pausa que, no estribilho III, indica o término da leitura.

 

O resultado é o seguinte.

I

~yhiîl{a/

4a ´élöhîm,

Wnbe_yvih]

4b restaura-nos,

^yn<©P'÷ raEïh'w>

4c e faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

4d e salvos seremos.

 

II

tAaåb'c. ~yhiäl{a/

8a ´élöhîm cübä´ôt,

Wnbe_yvih]

8b restaura-nos,

^yn<©P'÷ raEïh'w>

8c e faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

8d e salvos seremos.

 

III

tAaåb'c. ~yhiäl{a/ hw"Üh«y>

20a Yahweh ´élöhîm cübä´ôt, 

Wnbe_yvih]

20b restaura-nos.

^yn<©P'÷ raEïh'

20c Faz brilhar as tuas faces,

`h['ve(W"nIw>

20d e salvos seremos.

 

As versões traduzem 4b, 8b e 20b como “faze-nos voltar”. Não percebi, contudo, nenhuma referência a alguma possível, e até historicamente provável, “deportação”. Tudo leva a crer que o “rei” esteja na cidade, uma vez que o salmo pede que a divindade visite “esta” vinha. Se, referindo-se à cidade, onde reina, o rei pode falar de “esta” vinha, é razoável inferir-se que ele esteja na cidade.

 

A cidade, contudo, sofreu ataques. Ela está queimada (v. 17a). Pode até ter sofrido invasões, uma vez que se fala de animais da floresta e do campo fuçando a vinha, porque a sua cerca foi quebrada (v. 13a-14b).

 

O rei sabe que foi Yahweh quem arrancou a vinha do Egito, a plantou, cuidou dela, até que ela crescesse para todos os lados. O que o deixa perplexo é por que Yahweh quebrou as cercas dela (v. 13a). Isso só pode significar que ele esteja irado com seu povo, a ponto de não ouvir suas orações, não se comover se suas lágrimas (v. 5a-6b). O rei sabe, contudo, que Yahweh é o verdadeiro “pastor de Israel” (v. 2a), título que apenas indiretamente cabe ao próprio rei. Depois de ter virado o rosto, Yahweh pode, se queira, voltar-se, novamente, olhar, e ver, e visitar a vinha (v. 15).

 

O próprio rei pede por sua vida, mas também pela do povo (v. 18a-19c). Caso Yahweh intervenha em favor deles, Yahweh tem a garantia do rei, ele e o povo não mais se apartarão dele.

 

Talvez o povo esteja esperando que, montado em seu cavalo, e, à frente do seu exército, o rei cumpra seu papel de pastor do povo, e o proteja. Talvez o rei vá mesmo fazer isso. Mas ele se lembra de, antes, pedir a Yahweh que ele mesmo vá adiante deles, e marche para a salvação do povo (v. 3). Talvez o rei esteja pronto para enfrentar os inimigos. Ele sabe os riscos que corre. Sabe que pode perder a batalha. Pode perder a própria guerra.

 

Na incerteza da vida, ele recorre às garantias que, de um lado, a fé pessoal permite, e, de outro, o protocolo do poder impõe: à testa, vai Yahweh, confirmando o homem da sua destra, dando forças ao filho de homem que a divindade confirmou.

   

Osvaldo Luiz Ribeiro

03/12/2006